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Jornal Médico | NACIONAL
“Verão quente” entre
médicos e tutela
Os médicos vão dar menos de um mês ao Governo para que este
responda às reivindicações que estes profissionais têm vindo
a fazer, caso contrário avançarão para uma nova greve nacional,
que seria a segunda paralisação deste ano. O anúncio foi feito
no passado dia 1, na sede da Ordem dos Médicos (OM), em Lisboa,
em conferência de imprensa que se seguiu a uma reunião do
Fórum Médico. “Caso as negociações não se traduzam a curto prazo
em resultados inequivocamente positivos, as organizações sindicais
médicas estão preparadas para desencadearem os adequados
mecanismos legais de convocação de uma nova greve nacional
dos médicos”, afirmou o bastonário da OM, Miguel Guimarães.
“Chegámos a uma situação que já não per-
mite uma atitude expectante”. É desta forma
que os médicos, pela voz do seu bastonário,
acusam o incumprimento de promessas por
parte do Governo face a reivindicações que
estes profissionais têm vindo a fazer há ano
e meio.
A limitação do trabalho suplementar a 150
horas anuais, em vez das atuais 200, a im-
posição de um limite de 12 horas de traba- O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães,
lho em serviço de urgência e diminuição do apontou várias insuficiências ao SNS, considerando e para as reivindicações apresentadas, sob
número de utentes por médico de família que atualmente este só dá resposta a cerca de 60% pena de ser convocada uma nova greve na-
foram algumas das reivindicações não aten- da população portuguesa. “Temos um SNS que está cional dos médicos, que seria a segunda pa-
didas que estiveram na origem da greve em decadência e temos de o recuperar”, afirmou, ralisação neste ano.
nacional de médicos, decorrida a 10 e 11 de apontando para o que considera ser uma grave falta O presidente da Federação Nacional dos Mé-
maio, e que vão voltar a estar em cima da de médicos nas unidades públicas de saúde dicos (FNAM), Mário Jorge Neves, foi mais
mesa, numa próxima reunião com a tutela, longe, considerando que a próxima reunião
agendada para 11 de agosto. com o Ministério da Saúde, agendada para
“Não há nenhuma questão resolvida, à ex- “o agravamento das desigualdades no aces- 11 de agosto, será um encontro “de tudo ou
ceção da reposição do pagamento aos médi- so aos cuidados de saúde” e a “imposição de nada”. O dirigente sindical salientou que
cos das horas extraordinárias a 75% (nem regras que ultrapassam a legislação laboral, desde a paralisação de 10 e 11 de maio, o
sequer é a 100%!). Tudo o resto está por re- já de si inadequada, por parte dos gestores Governo se mantém de “adiamento em adia-
solver… Até os centros de avaliação médica profissionais e das administrações nomea- mento”. E lamentou: “Estamos em princípio
e psicológica (CAMP) – uma medida objetiva das”, denunciam os médicos. de agosto com a mesma situação que tínha-
que o Ministério da Saúde garantiu que ia De acordo com o bastonário, estes exemplos mos há um ano e meio”.
avançar – ainda estão por implementar, com “são apenas a ponta do iceberg”. É preciso Por sua vez, o secretário-geral do Sindicato
a desculpa de que ficaram parados devido à não esquecer, sublinha, questões de fundo Independente dos Médicos (SIM) acusa a tu-
recente mudança de secretários de Estado como o “arrastado subfinanciamento da tela de “faltar à sua palavra” e afirma, por
nas Finanças”, adiantou Miguel Guimarães. Saúde/SNS” e “a estagnação em que se en- isso: “Estamos a ser empurrados para uma
No entender das organizações que integram contram as reformas estruturais do setor nova greve!”.
o Fórum Médico, as condições de trabalho (cuidados de saúde primários, Saúde Públi- Em declarações aos jornalistas, na confe-
no setor da Saúde continuam a agravar-se, ca, hospitalar e cuidados continuados inte- rência de imprensa que se seguiu à reunião
com “o contexto laboral e salarial a manter- grados/paliativos)”. do Fórum Médico, no passado dia 1, os sin-
se em níveis elevados de decadência” e a dicatos mostraram-se disponíveis para que
“capacidade formativa amputada, devido à “ESTAMOS A SER EMPURRADOS a resolução de três das suas principais rei-
escassez de capital humano e requisitos no PARA UMA NOVA GREVE!” vindicações possa ser faseada por três datas
Serviço Nacional de Saúde (SNS)”. Os médi- concretas, até ao final da legislatura. Esta
cos alegam que “continua a crescer a revolta Face a este cenário, OM, sindicatos e organi- margem de manobra para calendarizar a
entre a classe” e que “as promessas ministe- zações profissionais vão dar até ao final de ação por parte da tutela prende-se com o
riais não têm passado a atos concretos”. Na agosto ao Governo para que este apresente facto de o Governo ter justificado todos estes
génese deste crescente burnout estão ainda soluções para os problemas identificados adiamentos com “o forte impacto orçamen-
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Julho 2017

