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CRÓNICA   |  Jornal Médico


















                                      Desculpem, mas eu li...



                                                             Tantas coisas!




                                                                                                              RUI CERNADAS

                                                                                                             Médico de família
                                                                                                            rui.cernadas@iol.pt



         O exercício da prática médica,                                                            as  universidades  ou  as  funda-
         quando – e deveria ser sempre!                                                            ções, fora do circuito da IF.
         –  é  assumido  com  o  profissio-                                                        Tal  como  no  Serviço  Nacional
         nalismo  e  com  a  humanidade                                                            de Saúde, onde ninguém parece
         que  Abel  Salazar  sempre  sub-                                                          interessado  em  discutir  a  sério
         linhou  e  nos  recordou,  não  só                                                        o  financiamento  e  as  suas  con-
         nos  gratifica  e  dignifica,  como                                                       sequências,  a  montante  e  a  ju-
         nos  lembra  de  uma  realidade                                                           sante,  também  na  investigação
         em  que  vivemos,  dura,  disso-                                                          não se trata do financiamento e
         nante e exigente.                                                                         assobia-se  para  o  lado  e  inven-
         Limites  ou  constrangimentos,                                                            tam-se portarias, leis e circuitos
         sejam de que natureza for, ape-                                                           que complicam, retardam e de-
         nas nos impõem um dever ético                                                             sanimam os mais “pintados”...
         inabalável para com os nossos                                                             A Medicina tem de assentar na
         doentes, numa relação que não                                                             prática clínica.
         pode  ser  mera  propaganda  e                                                            A  situação  vivida  hoje  em  dia
         precisa  de  se  sedimentar  num                                                          nos  internatos  médicos  e  a  ob-
         amplo conhecimento e cumpri-                                                              servação  da  vida  nas  escolas
         mento das regras e normas de                                                              médicas  alerta-nos  e  aflige-nos,
         atuação,  na  defesa  do  que  se   de opinião há uns meses atrás no   Como sempre        com uma produção de médicos
         apelida de autonomia técnica e   jornal “Porto 24” (julgo que a 8                         a  granel,  massificante  a  curtís-
         científica,  à  luz  dos  princípios   ou 9 de dezembro de 2016), cujo  nos recordou      simo prazo, pese embora a emi-
         de  eficiência  e  complexidade   título era “Investigar é preciso”.   Abel Salazar,      gração médica que, de resto, até
         de  quem  tem  de,  a  cada  mo-  A  sua  abordagem  centrava-se   a prática médica       nos deve encher de orgulho in-
         mento e uns após outros, fazer   em torno da questão da forma-                            ternacionalmente  pela  imagem
         decisão clínica.              ção  médica  e  da  investigação  é algo que nos            de  qualidade  dos  médicos  por-
         Conviria, por isso, que o Estado   científica  e  partia  de  uma  pri-  gratifica        tugueses,  formados  em  Portu-
         –  os  Estados  –  não  perdesse  de   meira evidência clara: a maioria                   gal! Não vejo nisso nenhum dra-
         vista  a  necessidade  de  dar  aos   dos ensaios clínicos em Portugal  e dignifica       ma.  Harvard,  Stanford,  Oxford,
         médicos  em  primeiro  lugar,  e   parte da iniciativa da indústria                       Cambridge, Sorbonne ou Lovai-
         depois a todos os outros profis-  farmacêutica  (IF),  como  se  isso                     na,  são  academias  conhecidas
         sionais  de  saúde,  o  reconheci-  pudesse ou constituísse, no limi-  E  não,  não  é  porque  não  haja  e  reconhecidas  pela  qualidade
         mento  do  valor  das  suas  ativi-  te, algum problema ou pecado.  perguntas  ou  teses  para  desen-  elevadíssima  dos  jovens  que
         dades  e  trabalhos.  O  que,  não   O  seu  texto,  também  de  desa-  volver ou questionar, nem pela  formam, graduam e “exportam”
         sendo  original  certamente,  de-  bafo e de revolta, merece refle-  falta  de  estudiosos  ou  investi-  para o mundo.
         verá ser tido em conta como um   xão e permitam-me uma breve  gadores,  mas  porque  o  finan-  O que será diferente, e isso sim
         inequívoco recurso de natureza   citação:  “os  ditos  ensaios  aca-  ciamento,  designadamente  de  poderia justificar uma outra dis-
         e formato organizacional.     démicos,  ou  seja,  aqueles  que  quanto o ensaio envolva (trata-  cussão ou reflexão, são as razões
         Vem isto a propósito de um texto   pretendem  responder  a  ques-  mentos,  exames  de  diagnósti-  – as primeiras e as últimas – que
         assinado pela Dr.ª Ana Ferreira   tões clínicas do nosso dia a dia,   co,  deslocações,  seguros,  custos   levam  os  nossos  especialistas,
         Castro, distinta colega oncologis-  financiado  pelas  instituições,   logísticos,  honorários  de  inves-  médicos  mas  outros  também,
         ta médica do Centro Hospitalar   tornaram-se  residuais  (cerca   tigação,  estatística),  assume  di-  a  deixar  Portugal  e  partir  para
         do Porto que, assinou um artigo   de 8%)”.                  mensões  incomportáveis  para  todo o lado…


                                                                  5
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