Page 8 - JM n.º 79
P. 8
Jornal Médico | ENTREVISTA
uma atuação concertada que se desenvolve
em três eixos principais: ambiental, morbi-
lidade e de melhoria contínua. No primeiro,
haverá o estabelecimento de uma parceria
com o Instituto Nacional Doutor Ricardo Jor-
ge (INSA), na qual vai ser analisado o impacto
dos recentes acontecimentos nas populações
afetadas no que diz respeito ao ar, água, ali-
mentos e solo. Vão ser abrangidos os três cen-
tros de saúde: Pedrógão Grande, Figueiró dos
Vinhos e Castanheira de Pera. Se se conside-
rar pertinente, o projeto será alargado a ou-
tras unidades. O segundo eixo é o da morbili-
dade, no âmbito do qual haverá inquéritos às
populações, um estudo respiratório e estudos
comparativos através do sistema clínico e de
todos os sistemas de informação comparados
semanalmente. Estará disponível um técnico,
pelo período de dois anos, para a realização
de espirometrias e numa fase final para com-
preender alterações, se existem ou não mais
patologias respiratórias devido aos fumos e
poeiras decorrentes dos incêndios. Posterior- termos “recebido” da região Norte, o conce- Na sua opinião, o projeto está a gerar os
mente, o INSA vai levar a cabo, numa amos- lho de Vila Nova de Foz Côa, que foi integra- resultados esperados na população da re-
tra mais reduzida, um estudo sobretudo de do na ULS da Guarda, e que veio trazer para gião do centro?
sangue e saliva, dirigido especificamente a a região mais um serviço de urgência básico JT | Fico feliz por relembrar o projeto “Conhe-
tóxicos que poderão ter resultado de combus- e uma unidade de cuidados continuados. cer Saúde” de 2004. Éramos três profissionais
tões graves. Por fim, o eixo da morbilidade e Por outro lado, o doente já pode escolher a trabalhar nesse projeto… Acho que foi ino-
de melhoria contínua da coesão social: atra- onde quer ser atendido. vador e que hoje está a atualizar-se a partir do
vés de um painel de Delphi constituído por Programa de Literacia em Saúde e do percurso
peritos e informadores-chave, para aferir se JM | Sente reciprocidade por parte do Mi- do doente, com o professor Constantino Sakel-
a nossa atuação foi a mais correta, gestão de nistério da Saúde nas indicações que vai larides – da Escola Nacional de Saúde Pública –
expectativas das populações, etc. O painel transmitindo? Há abertura e diálogo? sempre em atividade, com quem trabalhámos
será desenvolvido por etapas, com respostas JT | Completamente! Estamos sintonizados. nessa altura.
a inquéritos consecutivos, que irão incluir 72 Há diálogo e temos transmitindo a quem de
pessoas, do poder local às forças vivas da so- direito que são necessários mais especialis- JM | Faz sentido mantê-lo à luz da evolução
ciedade (bombeiros, segurança social, farmá- tas de MGF. Quem define a política nacional natural da relação médico-doente?
cias, vítimas, entre outros). é o Ministério da Saúde, mas nós também JT | Faz todo o sentido. Quanto mais esclare-
cumprimos a nossa obrigação que é defen- cidos estiverem os doentes, melhor poderá
JM | Para quando está pensada a publica- der a região Centro. ser a nossa prestação enquanto profissio-
ção dos resultados? nais de saúde.
JT | Vai depender da articulação da monitori- JM | Quantos mais especialistas seriam
zação dos nossos resultados nos nossos labo- necessários? JM | Como é que a região se prepara para
ratórios com a monitorização dos resultados JT | Não sei quantificar porque o nosso objeti- o inverno, com todos os episódios de
do INSA. Vai durar dois anos e o relatório final vo principal é multiplicar o número de USF e maior afluência às urgências numa popu-
deverá ser elaborado em outubro de 2019. de UCC na região. Temos 56 UCC e 66 USF. Só lação fragilizada por estes recentes e trá-
este ano já abriram três USF na região Centro. gicos episódios?
JM | Perante o cenário de abertura de va- JT | Temos essa preocupação. Na próxima
gas em diversos locais de todo o país iden- JM | Crê que esta é uma forma de dar con- semana teremos uma reunião com os agru-
tificados como sendo carenciados, qual é a tinuidade à reforma dos cuidados de saúde pamentos de centros de saúde. Também já
perspetiva para a região centro no que diz primários que aparentemente tem sofrido temos data para com os hospitais para, mais
respeito à fixação de médicos? É um pro- algum abrandamento? Ou não nota esse uma vez, prepararmos os nossos serviços de
blema que está devidamente identificado? abrandamento na região centro? acordo com o plano de inverno. Vamos fazer
JT | Temos vindo a colocar, a nível superior, JT | Não, porque nós temos contacto com uma reavaliação para que nada falhe, evi-
as nossas necessidades que são definidas a Comissão Nacional para a Reforma dos tando que voltem a acontecer situações por
pela Administração Central do Sistema de Cuidados de Saúde Primários, estamos sin- incapacidade e/ou alguma falta de esclareci-
Saúde (ACSS) juntamente com o Ministério tonizados relativamente àquilo que são as mento completo da população.
da Saúde. Foram-nos atribuídas, neste con- necessidades sentidas e reais e aquelas que
curso que está a decorrer, 16 vagas de Medi- ultrapassam esta questão. Todos nós reivin- JM | Em termos de crescimento, o que está
cina Geral e Familiar (MGF) o que, na nossa dicamos sempre mais. pensado para o futuro a breve prazo?
perspetiva, fica aquém das necessidades. JT | A abertura de mais USF e UCC. O nosso
Esta é uma região muito vasta sob o ponto JM | Considera que o projeto “Conhecer objetivo é de que as UCSP continuem num
de vista geográfico; só num concelho tenho Saúde”, do Departamento de Saúde Públi- processo evolutivo de organização e se en-
25 extensões de saúde. É difícil dar apoio em ca e Planeamento da ARSC, iniciado em caminhem para futuras USF. Isto tudo, com
termos de MGF de proximidade. Estamos a 2004, vem ao encontro da evolução natu- a vinda de mais gente nova, com a coloca-
falar de uma população com 1 milhão e 750 ral do papel do doente e do apoio – e não ção de jovens que aspiram a ter um futuro
mil habitantes, não esquecendo o facto de dependência – do seu médico de família? numa USF, apesar de reconhecermos que
8
Agosto 2017

