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Jornal Médico   |  ENTREVISTA



         uma atuação concertada que se desenvolve
         em  três  eixos  principais:  ambiental,  morbi-
         lidade e de melhoria contínua. No primeiro,
         haverá  o  estabelecimento  de  uma  parceria
         com o Instituto Nacional Doutor Ricardo Jor-
         ge (INSA), na qual vai ser analisado o impacto
         dos recentes acontecimentos nas populações
         afetadas no que diz respeito ao ar, água, ali-
         mentos e solo. Vão ser abrangidos os três cen-
         tros de saúde: Pedrógão Grande, Figueiró dos
         Vinhos e Castanheira de Pera. Se se conside-
         rar pertinente, o projeto será alargado a ou-
         tras unidades. O segundo eixo é o da morbili-
         dade, no âmbito do qual haverá inquéritos às
         populações, um estudo respiratório e estudos
         comparativos através do sistema clínico e de
         todos os sistemas de informação comparados
         semanalmente. Estará disponível um técnico,
         pelo período de dois anos, para a realização
         de espirometrias e numa fase final para com-
         preender alterações, se existem ou não mais
         patologias respiratórias devido aos fumos e
         poeiras decorrentes dos incêndios. Posterior-  termos “recebido” da região Norte, o conce-  Na sua opinião, o projeto está a gerar os
         mente, o INSA vai levar a cabo, numa amos-  lho de Vila Nova de Foz Côa, que foi integra-  resultados esperados na população da re-
         tra mais reduzida, um estudo sobretudo de  do na ULS da Guarda, e que veio trazer para  gião do centro?
         sangue  e  saliva,  dirigido  especificamente  a  a região mais um serviço de urgência básico   JT | Fico feliz por relembrar o projeto “Conhe-
         tóxicos que poderão ter resultado de combus-  e  uma  unidade  de  cuidados  continuados.  cer Saúde” de 2004. Éramos três profissionais
         tões graves. Por fim, o eixo da morbilidade e  Por  outro  lado,  o  doente  já  pode  escolher   a trabalhar nesse projeto… Acho que foi ino-
         de melhoria contínua da coesão social: atra-  onde quer ser atendido.           vador e que hoje está a atualizar-se a partir do
         vés de um painel de Delphi constituído por                                      Programa de Literacia em Saúde e do percurso
         peritos e informadores-chave, para aferir se  JM | Sente reciprocidade por parte do Mi-  do doente, com o professor Constantino Sakel-
         a nossa atuação foi a mais correta, gestão de  nistério da Saúde nas indicações que vai  larides – da Escola Nacional de Saúde Pública –
         expectativas  das  populações,  etc.  O  painel  transmitindo? Há abertura e diálogo?  sempre em atividade, com quem trabalhámos
         será desenvolvido por etapas, com respostas  JT | Completamente! Estamos sintonizados.   nessa altura.
         a inquéritos consecutivos, que irão incluir 72  Há diálogo e temos transmitindo a quem de
         pessoas, do poder local às forças vivas da so-  direito que são necessários mais especialis-  JM | Faz sentido mantê-lo à luz da evolução
         ciedade (bombeiros, segurança social, farmá-  tas de MGF. Quem define a política nacional   natural da relação médico-doente?
         cias, vítimas, entre outros).           é  o  Ministério  da  Saúde,  mas  nós  também  JT | Faz todo o sentido. Quanto mais esclare-
                                                 cumprimos a nossa obrigação que é defen-  cidos estiverem os doentes, melhor poderá
         JM | Para quando está pensada a publica-  der a região Centro.                  ser  a  nossa  prestação  enquanto  profissio-
         ção dos resultados?                                                             nais de saúde.
         JT | Vai depender da articulação da monitori-  JM | Quantos  mais  especialistas  seriam
         zação dos nossos resultados nos nossos labo-  necessários?                      JM | Como é que a região se prepara para
         ratórios com a monitorização dos resultados  JT | Não sei quantificar porque o nosso objeti-  o  inverno,  com  todos  os  episódios  de
         do INSA. Vai durar dois anos e o relatório final  vo principal é multiplicar o número de USF e  maior afluência às urgências numa popu-
         deverá ser elaborado em outubro de 2019.  de UCC na região. Temos 56 UCC e 66 USF. Só  lação fragilizada por estes recentes e trá-
                                                 este ano já abriram três USF na região Centro.  gicos episódios?
         JM | Perante o cenário de abertura de va-                                       JT | Temos essa preocupação. Na próxima
         gas em diversos locais de todo o país iden-  JM | Crê que esta é uma forma de dar con-  semana teremos uma reunião com os agru-
         tificados como sendo carenciados, qual é a  tinuidade à reforma dos cuidados de saúde  pamentos de centros de saúde. Também já
         perspetiva para a região centro no que diz  primários que aparentemente tem sofrido  temos data para com os hospitais para, mais
         respeito à fixação de médicos? É um pro-  algum abrandamento? Ou não nota esse  uma vez, prepararmos os nossos serviços de
         blema que está devidamente identificado?  abrandamento na região centro?        acordo com o plano de inverno. Vamos fazer
         JT | Temos vindo a colocar, a nível superior,  JT |  Não,  porque  nós  temos  contacto  com   uma reavaliação para que nada falhe, evi-
         as  nossas  necessidades  que  são  definidas  a  Comissão  Nacional  para  a  Reforma  dos   tando que voltem a acontecer situações por
         pela  Administração  Central  do  Sistema  de  Cuidados  de  Saúde  Primários,  estamos  sin-  incapacidade e/ou alguma falta de esclareci-
         Saúde (ACSS) juntamente com o Ministério  tonizados  relativamente  àquilo  que  são  as   mento completo da população.
         da Saúde. Foram-nos atribuídas, neste con-  necessidades sentidas e reais e aquelas que
         curso que está a decorrer, 16 vagas de Medi-  ultrapassam esta questão. Todos nós reivin-  JM | Em termos de crescimento, o que está
         cina Geral e Familiar (MGF) o que, na nossa  dicamos sempre mais.               pensado para o futuro a breve prazo?
         perspetiva,  fica  aquém  das  necessidades.                                    JT | A abertura de mais USF e UCC. O nosso
         Esta é uma região muito vasta sob o ponto  JM | Considera que o projeto “Conhecer  objetivo é de que as UCSP continuem num
         de vista geográfico; só num concelho tenho  Saúde”, do Departamento de Saúde Públi-  processo evolutivo de organização e se en-
         25 extensões de saúde. É difícil dar apoio em  ca e Planeamento da ARSC, iniciado em  caminhem para futuras USF. Isto tudo, com
         termos de MGF de proximidade. Estamos a  2004, vem ao encontro da evolução natu-  a vinda de mais gente nova, com a coloca-
         falar de uma população com 1 milhão e 750  ral do papel do doente e do apoio – e não  ção de jovens que aspiram a ter um futuro
         mil  habitantes,  não  esquecendo  o  facto  de  dependência – do seu médico de família?  numa  USF,  apesar  de  reconhecermos  que


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