Page 9 - JM n.º 79
P. 9

Andreia Montes | andreiamontes@jornalmedico.pt                                         ENTREVISTA   |  Jornal Médico




                                                   PROJETOS INOVADORES COMBATEM DOENÇAS CEREBROVASCULARES


                                                   Atendendo aos números elevados no que diz respeito às doenças  Também esta necessidade de redução do sal se projetou na
                                                   cardio e cerebrovasculares, a ARSC tem levado a cabo alguns  iniciativa sopa.come, que envolveu cantinas escolares e
                                                   projetos de Saúde Pública com impacto na comunidade. Com o  restaurantes da região centro, cumprindo o desiderato de
                                                   projeto pão.come foi possível envolver 1,6 milhões de pessoas e  “promoção da sopa como um alimento rico, aumentando o
                                                   cerca de 1000 das padarias da região com vista à redução do sal  consumo de leguminosas e reduzindo a quantidade de hidratos
                                                   no pão, “ultrapassando [até] aquilo que está legalmente instituí-  de carbono”. Ambas as iniciativas estão integrados no projeto
                                                   do em termos de conteúdo de cloreto de sódio”, alertando para  minorsal.saúde.
                                                   as alterações que este provoca no organismo quando consumido  Já está em curso o “Tão doce não” em ligação com as pada-
                                                   em quantidades exageradas. Tem como parceiros a Associação  rias e pastelarias dos diferentes concelhos, fruto da neces-
                                                   do Comércio e da Indústria da panificação, Pastelaria e Simila-  sidade de diminuir o consumo do açúcar, “projetos ousados
                                                   res, a Fundação Portuguesa de Cardiologia e o grupo AUCHAN.  e de reforço positivo”.




                                                 JM | É o seu grande sonho para a região?  Desportiva. Criei um grupo médico de acom-
                                                 JT | É o meu sonho porque parte da necessi-  panhamento  das  seleções  nacionais  de  an-
                                                 dade que sinto e pela qual luto desde 1992,  debol, fui médico de Saúde Pública em auto-
                                                 praticamente desde que abriu, num edifício  mobilismo, ciclismo, atletismo, futebol, o que
         as UCSP têm tido uma prestação fantástica   sem condições.                      evidencia o papel alargado deste profissional.
         em termos de disponibilidade para atendi-                                       Chegámos a constituir uma bolsa de médicos
         mento das pessoas que procuram os servi-  JM | Mas esse é o sonho concretizado. E  de Coimbra gratuitamente para apoiar as se-
         ços. Temos reunido com os hospitais e di-  aqueles que não se concretizaram e que  leções nacionais de andebol. É algo que ficará
         retores clínicos para estabelecer parcerias.   podem,  eventualmente,  ser “aproveita-  marcado para sempre na minha história.
         Hoje, felizmente, já temos uma melhor arti-  dos” no próximo mandato?
         culação entre os serviços, ainda que subsis-  JT | Aquilo que qualquer pessoa que estives-  JM | Considera que a Saúde Pública tem o
         tam algumas dificuldades entre determina-  se neste lugar ansiaria era que todas as uni-  reconhecimento que lhe é devido?
         das especialidades hospitalares. Se houver    dades de saúde tivessem aquilo que são as  JT | Cada vez mais temos de trabalhar em
         complementaridade entre hospitais é mais  necessidades dos profissionais em todas as  equipa. O médico de Saúde Pública (SP) é o
         fácil e essa já é uma prática corrente. Pese   medidas supridas: instalações, equipamen-  congregador que vê a floresta. Dispõe de um
         embora seja difícil cativar jovens para ini-  tos, etc. A alta tecnologia é uma realidade e  vasto  leque  de  intervenções,  quer  ao  nível
         ciar uma vida nova na periferia das gran-  o Ministério da Saúde tem vindo a investir  dos cuidados de saúde primários em colabo-
         des cidades, temos vindo a conseguir fazer   nesse sentido.                     ração com as restantes equipas de CSP, quer
         essa sensibilização.                                                            com os hospitais. Sempre que fui visitar as
                                                 JM | Que planos tem  após o término  do  urgências  dos  hospitais  era  acompanhado
         JM | Qual o número de internos para este  seu mandato à frente da ARS Centro?   pelo delegado de saúde regional e tivemos
         ano?                                    JT | Ainda não pensei nisso, mas continuarei  intervenções  muito  positivas  porque  aí  se
         JT | Este ano iniciaram funções 106 em MGF  a dedicar-me aos projetos sociais de âmbito  detetou algumas áreas que não eram vistas
         e outros 13 em Saúde Pública. São números   alargado que sempre me acompanharam.   pelo  hospital  como  uma  realidade.  Tenho
         muito  significativos  e  os  hospitais  estão  a                               de fazer justiça à SP: esta região Centro tem
         dar resposta a esta questão.            JM | Então  não é um início, mas antes  trabalhado exemplarmente, indo a todos os
                                                 uma continuidade…                       lares,  identificando-os,  verificando  o  cum-
         JM | Falávamos há pouco de futuro e eu  JT | É uma continuidade dessa vertente so-  primento  do  Plano  Nacional  de  Vacinação
         recordava uma entrevista que concedeu  cial, seja ou não nesta região. Sempre manti-  nos próprios lares de idoso.
         à Agência Lusa em abril passado a propó-  ve a filosofia de vida de que, se tirarmos dois
         sito do investimento na região centro em  minutos do nosso dia, ao final do ano temos  JM | Sente necessidade de transmitir mais
         áreas como as Teleconsultas e a Teleassis-  muito  tempo.  Por  isso  fiz  muitas  coisas  ao  reforços positivos?
         tência. Como é que alia este investimento  mesmo  tempo.  Cumpri  o  serviço  médico  à  JT | Há sempre falta de positivismo. É certo
         ao envelhecimento populacional?         periferia no Alto Douro: em 1979/80, em Ta-  que  não  podemos  viver  no  idealismo.  Nas
         JT | É, efetivamente, essencial ir ao encontro   buaço e São João da Pesqueira, percorríamos  UCSP e nas UCC o grande objetivo é transmi-
         das necessidades de quem está na periferia e   200 km em quatro horas por estradas e cami-  tir os comportamentos saudáveis a nível co-
         apostar na teleconsulta, em articulação entre   nhos onde aprendi a ser médico. Hoje em dia,  munitário. Temos um protocolo com a FMH
         o médico de família e os médicos hospitalares.   aquilo que é necessário é que o jovem médi-  para incluir o exercício físico dentro desta
                                                 co tenha conhecimento da realidade fora da  prática. Temos de ser realistas e no realismo
         JM | Mas tecnicamente é um desafio…     sua faculdade e do seu âmbito de formação.  precisamos de campanhas. O meu sonho era
         JT | Atualmente, praticamente todos os ACES                                     poder ter cidades e vilas com jovens e adul-
         dispõem dos equipamentos necessários.   JM | Acha que existe essa oportunidade?  tos a praticarem exercício físico nos jardim
                                                 JT | Existe, no estrangeiro e até dentro do pró-  e com música.
         JM | Que projetos tinha para a região que  prio país desde que as pessoas queiram ir.
         não  viu  cumprir?  E  porquê?  Há  sempre                                      JM | Que conselho gostaria de deixar ao
         sonhos que ficam de lado…               JM | Considera que a deslocalização pode-  seu sucessor neste cargo?
         JT | Já concretizei muitos sonhos e o último  rá ser a grande oportunidade de que fala?  JT | Não é preciso dar conselhos, mas estar
         chama-se Centro de Saúde Fernão de Maga-  JT | Essa é a grande oportunidade. Em termos  disponível para ajudar quem passa por es-
         lhães.                                  de Medicina fiz de tudo, incluindo Medicina  tas “máquinas”.


                                                                  9
                                                              Agosto 2017
   4   5   6   7   8   9   10   11   12   13   14