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Andreia Montes | andreiamontes@jornalmedico.pt ENTREVISTA | Jornal Médico
PROJETOS INOVADORES COMBATEM DOENÇAS CEREBROVASCULARES
Atendendo aos números elevados no que diz respeito às doenças Também esta necessidade de redução do sal se projetou na
cardio e cerebrovasculares, a ARSC tem levado a cabo alguns iniciativa sopa.come, que envolveu cantinas escolares e
projetos de Saúde Pública com impacto na comunidade. Com o restaurantes da região centro, cumprindo o desiderato de
projeto pão.come foi possível envolver 1,6 milhões de pessoas e “promoção da sopa como um alimento rico, aumentando o
cerca de 1000 das padarias da região com vista à redução do sal consumo de leguminosas e reduzindo a quantidade de hidratos
no pão, “ultrapassando [até] aquilo que está legalmente instituí- de carbono”. Ambas as iniciativas estão integrados no projeto
do em termos de conteúdo de cloreto de sódio”, alertando para minorsal.saúde.
as alterações que este provoca no organismo quando consumido Já está em curso o “Tão doce não” em ligação com as pada-
em quantidades exageradas. Tem como parceiros a Associação rias e pastelarias dos diferentes concelhos, fruto da neces-
do Comércio e da Indústria da panificação, Pastelaria e Simila- sidade de diminuir o consumo do açúcar, “projetos ousados
res, a Fundação Portuguesa de Cardiologia e o grupo AUCHAN. e de reforço positivo”.
JM | É o seu grande sonho para a região? Desportiva. Criei um grupo médico de acom-
JT | É o meu sonho porque parte da necessi- panhamento das seleções nacionais de an-
dade que sinto e pela qual luto desde 1992, debol, fui médico de Saúde Pública em auto-
praticamente desde que abriu, num edifício mobilismo, ciclismo, atletismo, futebol, o que
as UCSP têm tido uma prestação fantástica sem condições. evidencia o papel alargado deste profissional.
em termos de disponibilidade para atendi- Chegámos a constituir uma bolsa de médicos
mento das pessoas que procuram os servi- JM | Mas esse é o sonho concretizado. E de Coimbra gratuitamente para apoiar as se-
ços. Temos reunido com os hospitais e di- aqueles que não se concretizaram e que leções nacionais de andebol. É algo que ficará
retores clínicos para estabelecer parcerias. podem, eventualmente, ser “aproveita- marcado para sempre na minha história.
Hoje, felizmente, já temos uma melhor arti- dos” no próximo mandato?
culação entre os serviços, ainda que subsis- JT | Aquilo que qualquer pessoa que estives- JM | Considera que a Saúde Pública tem o
tam algumas dificuldades entre determina- se neste lugar ansiaria era que todas as uni- reconhecimento que lhe é devido?
das especialidades hospitalares. Se houver dades de saúde tivessem aquilo que são as JT | Cada vez mais temos de trabalhar em
complementaridade entre hospitais é mais necessidades dos profissionais em todas as equipa. O médico de Saúde Pública (SP) é o
fácil e essa já é uma prática corrente. Pese medidas supridas: instalações, equipamen- congregador que vê a floresta. Dispõe de um
embora seja difícil cativar jovens para ini- tos, etc. A alta tecnologia é uma realidade e vasto leque de intervenções, quer ao nível
ciar uma vida nova na periferia das gran- o Ministério da Saúde tem vindo a investir dos cuidados de saúde primários em colabo-
des cidades, temos vindo a conseguir fazer nesse sentido. ração com as restantes equipas de CSP, quer
essa sensibilização. com os hospitais. Sempre que fui visitar as
JM | Que planos tem após o término do urgências dos hospitais era acompanhado
JM | Qual o número de internos para este seu mandato à frente da ARS Centro? pelo delegado de saúde regional e tivemos
ano? JT | Ainda não pensei nisso, mas continuarei intervenções muito positivas porque aí se
JT | Este ano iniciaram funções 106 em MGF a dedicar-me aos projetos sociais de âmbito detetou algumas áreas que não eram vistas
e outros 13 em Saúde Pública. São números alargado que sempre me acompanharam. pelo hospital como uma realidade. Tenho
muito significativos e os hospitais estão a de fazer justiça à SP: esta região Centro tem
dar resposta a esta questão. JM | Então não é um início, mas antes trabalhado exemplarmente, indo a todos os
uma continuidade… lares, identificando-os, verificando o cum-
JM | Falávamos há pouco de futuro e eu JT | É uma continuidade dessa vertente so- primento do Plano Nacional de Vacinação
recordava uma entrevista que concedeu cial, seja ou não nesta região. Sempre manti- nos próprios lares de idoso.
à Agência Lusa em abril passado a propó- ve a filosofia de vida de que, se tirarmos dois
sito do investimento na região centro em minutos do nosso dia, ao final do ano temos JM | Sente necessidade de transmitir mais
áreas como as Teleconsultas e a Teleassis- muito tempo. Por isso fiz muitas coisas ao reforços positivos?
tência. Como é que alia este investimento mesmo tempo. Cumpri o serviço médico à JT | Há sempre falta de positivismo. É certo
ao envelhecimento populacional? periferia no Alto Douro: em 1979/80, em Ta- que não podemos viver no idealismo. Nas
JT | É, efetivamente, essencial ir ao encontro buaço e São João da Pesqueira, percorríamos UCSP e nas UCC o grande objetivo é transmi-
das necessidades de quem está na periferia e 200 km em quatro horas por estradas e cami- tir os comportamentos saudáveis a nível co-
apostar na teleconsulta, em articulação entre nhos onde aprendi a ser médico. Hoje em dia, munitário. Temos um protocolo com a FMH
o médico de família e os médicos hospitalares. aquilo que é necessário é que o jovem médi- para incluir o exercício físico dentro desta
co tenha conhecimento da realidade fora da prática. Temos de ser realistas e no realismo
JM | Mas tecnicamente é um desafio… sua faculdade e do seu âmbito de formação. precisamos de campanhas. O meu sonho era
JT | Atualmente, praticamente todos os ACES poder ter cidades e vilas com jovens e adul-
dispõem dos equipamentos necessários. JM | Acha que existe essa oportunidade? tos a praticarem exercício físico nos jardim
JT | Existe, no estrangeiro e até dentro do pró- e com música.
JM | Que projetos tinha para a região que prio país desde que as pessoas queiram ir.
não viu cumprir? E porquê? Há sempre JM | Que conselho gostaria de deixar ao
sonhos que ficam de lado… JM | Considera que a deslocalização pode- seu sucessor neste cargo?
JT | Já concretizei muitos sonhos e o último rá ser a grande oportunidade de que fala? JT | Não é preciso dar conselhos, mas estar
chama-se Centro de Saúde Fernão de Maga- JT | Essa é a grande oportunidade. Em termos disponível para ajudar quem passa por es-
lhães. de Medicina fiz de tudo, incluindo Medicina tas “máquinas”.
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Agosto 2017

