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Andreia Montes | andreiamontes@jornalmedico.pt                                         ENTREVISTA   |  Jornal Médico



         sou e continua a atravessar, mas temos vin-  “Há diálogo [com                   JM | E utilizou essa frontalidade para afe-
         do a desenvolver todos aqueles que estavam                                      rir o modo de atuação no terreno, tentan-
         [projetados]  e  ainda  alguns  que  temos  em   o Ministério da Saúde]         do perceber se houve ou não negligência?
         mente, designadamente o Centro de Saúde   e temos transmitido                   JT | Não usaria a palavra negligência. Na mi-
         Fernão de Magalhães, uma prioridade desde   a quem de direito que               nha opinião não houve. Pode é não ter havido
         1992 para a cidade de Coimbra, reconheci-                                       a clarificação de alguma situação… Foi por isso
         damente degradado e que em breve iniciará   são necessários mais                que mantivemos, desde o primeiro minuto, re-
         o seu processo de construção.           especialistas de MGF.                   uniões permanentes nos três centros de saúde
                                                                                         com as câmaras municipais, juntas de fregue-
         JM  |  Que  perfil  populacional  podemos   Quem define a política              sia,  médicos,  enfermeiros,  psicólogos,  fisiote-
         traçar a partir dos dados da taxa de mor-  nacional é o Ministério,             rapeutas, nutricionistas, com toda a gente no
         talidade,  que  apontam  como  principais                                       terreno a procurar um caminho que tivesse a
         causas de morte as doenças cardio e cere-  mas nós também                       participação ativa de todos os intervenientes.
         brovasculares? Que tipo de atuação pode-  cumprimos a nossa
         rá travar estes valores?                obrigação que é defender                JM | Que dificuldades persistem até hoje?
         JT | Como sabe, esta é uma população enve-                                      JT | Vamos reunir brevemente com a comissão
         lhecida.  E,  felizmente,  temos  vindo  a  imple-  a região centro”            nacional de acompanhamento desta situação.
         mentar programas prioritários para dar res-                                     As conclusões vão, muito provavelmente, ser
         posta a essas situações. Para além disso, temos                                 transmitidas  a  outras  zonas  que  enfrentem
         a maior rede de unidade de cuidados conti-                                      problemas  semelhantes.  Estamos  permanen-
         nuados integrados (UCCI) com cerca de 2.300                                     temente a adaptar-nos conforme a realidade...
         camas.  Irá  entrar  em  funcionamento  uma                                     Neste  momento,  aquilo  que  sabemos  é  que,
         outra, na área de Saúde Mental. Já tínhamos                                     durante os próximos anos, vamos intervir di-
         tido  duas  propostas  de  projetos-piloto  que                                 retamente junto das populações para lhes em-
         não foram possíveis concretizar, mas estamos                                    prestar o melhor: a solidariedade das pessoas,
         agora a ser compensados com a abertura de   JM | Qual foi a sua maior preocupação  a sua disponibilidade para dar assistência. Não
         30 vagas para unidades de sócio ocupacional,   quando  se  reuniu,  a  4  de  julho,  com  as  tem faltado apoio de toda a sociedade, desde a
         oito vagas de equipa de apoio domiciliário e  instituições de saúde na sede da Câmara  União das Misericórdias Portuguesas em arti-
         oito vagas de residência de apoio moderado.  Municipal para redefinir estratégias?  culação com o Ministério da Saúde, a Cruz Ver-
                                                 JT | Acompanhar a par e passo aquilo que  melha  Portuguesa,  a  Fundação  Calouste  Gul-
         JM | O problema  do  alcoolismo  é  recor-  estava  a  acontecer  no  terreno,  nomeada-  benkian, os Médicos de Mundo em Castanheira
         rente?                                  mente  com  as  nossas  unidades  de  saúde,  de Pera, e de outras organizações e sugestões
         JT  |  Vamos  ter  uma  reunião  sobre  depen-  em conjunto com a Unidade de Cuidados de  pessoais que vão surgindo no dia a dia e que
         dências, nomeadamente a infodependência   Saúde Mental Comunitária de Leiria Norte,   vêm acrescentar alguma coisa.
         – uma realidade com impacto crescente nos  que é feita pelo CHUC, na pessoa da Dr.ª Ana
         dias de hoje –, referente ao vício do jogo e to-  Araújo,  que  percorreu  permanentemente   JM | Qual é o rescaldo atual?
         dos os vícios existentes na sociedade atual.  o  terreno  devidamente  georreferenciado.   JT | De acordo com a informação que foi en-
         É  uma  realidade  que  vamos  combatendo.  Não  queremos  deixar  ninguém  sem  assis-  viada hoje para o Ministério, há três doentes
         Temos  desenvolvido  projetos  inovadores.   tência  clínica,  psiquiátrica  ou  psicológica.   nos CHUC, dois no serviço de queimados e de
         Com o projeto das “Noites saudáveis” prová-  Também  foi  de  grande  importância  o  tra-  cirurgia  plástica  reconstrutiva,  uma  doente
         mos ser possível as pessoas divertirem-se de   balho  das  unidades  de  cuidados  na  comu-  internada na Ortopedia e ainda apoiamos
         uma forma mais saudável.                nidade (UCC), particularmente de Pera e de  dois  doentes  que  vieram  (do  incêndio)  de
                                                 Figueiró  dos  Vinhos  que,  neste  momento,   Abrantes e um bombeiro transferido para a
         JM | Quando olha para o seu mandato vê  continuam a trabalhar junto da população  Cova da Beira; há um doente que permanece
         um antes e um depois de 17 de junho?    escolar para não deixar ninguém fora da in-  na unidade de queimados do Centro Hospi-
         JT | Sim. Aquilo que vi marcou-me e marcar-  tervenção dos serviços de saúde, mediante  talar de Lisboa Norte, cuja situação é estável,
         me-á sempre, até do ponto de vista pessoal.   a disponibilidade que os serviços de saúde  com  uma  melhoria  lenta,  mas  consistente.
         Sou um homem do terreno e percorri todas  têm para receber todas as pessoas. Fiz uma  Estão dois doentes no Hospital de Santa Ma-
         as  aldeias  e  circunstâncias,  acompanhado  recomendação inicial para que os utentes se   ria provenientes [dos incêndios] de Oleiros e
         por delegados de saúde (onde se inclui o Dr.   dirigissem ao seu médico de família, com o   de Castelo Branco, um doente do Hospital de
         João Pedro Pimentel), Dr. Morais (a partir do  intuito de realizar um diagnóstico atual da  São João que fez a última cirurgia há pouco
         grupo de crise), todos os clínicos, os presi-  sua situação clínica e assim poderem ser de-  tempo e cuja situação é estável e um outro
         dentes de câmara, de juntas de freguesia, os   vidamente encaminhados/referenciados.  que  está  em  Espanha,  Valência.  Nas  unida-
         CTT, o Ministério da Administração Interna                                      des de cuidados continuados temos pessoas
         (MAI),  toda  a  sociedade...  Trabalhámos  em  JM | Das instituições presentes nessa re-  que estão a ser apoiadas pelas Misericórdias
         conjunto,  nas  dificuldades  decorrentes  de  união  (ARSC,  CHUC,  DGS,  ACSS,  SPMS,   e IPSS, designadamente de Pedrogão Grande
         uma  catástrofe  desta  natureza,  tentando   INSA,  Infarmed,  IPST,  INEM  e  Reforma  e de Figueiró dos Vinhos. Também na Unida-
         manter  uma  boa  coordenação  [das  opera-  dos  Cuidados Continuados Integrados)  de de Cuidados Continuados do Montepio, no
         ções] na saúde, através do senhor ministro  considerou  que  todos  tinham  a  mesma  Montijo, há um doente que está a fazer a sua
         e do senhor secretário de Estado. Consegui-  perspetiva do assunto? As opiniões diver-  terapêutica no local.
         mos monitorizar permanentemente tudo o   giam muito? Qual era a perspetiva?
         que está a acontecer no terreno, com a ela-  JT | Como em qualquer reunião havia opi-  JM  |  Falava nos  projetos  inovadores  a
         boração de relatórios diários para a tutela,   niões  diferentes,  procurámos  uma  conclu-  pensar no futuro destas populações afe-
         a fim de sabermos a evolução dos doentes.   são e que ela fosse consensual. Gosto muito  tados. Que resposta está pensada no pla-
         Entramos agora numa nova fase. O rescaldo   de  consensos,  procuro-os  sempre.  Não  sou   no e futuro? Quais são os objetivos?
         de um incêndio também se traduz no rescal-  extremista  e  gosto  de  trabalhar  com  todos   JT | Com os recentes episódios dos incêndios
         do do seu impacto nas populações.       com frontalidade e transparência.       ocorridos  na  região  tornou-se  necessária


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