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CRÓNICA | Jornal Médico
DESCULPEM, MAS EU LI!
Doenças crónicas e uma
oportunidade perdida
RUI CERNADAS
Médico de família
rui.cernadas@iol.pt
O envelhecimento das socieda- gular, com evidência vasta para saúde primários é “a prioridade Em 2016, no âmbito da inves-
des e a crescente tendência de efeitos favoráveis na obesidade, no desenvolvimento da estra- tigação clínica para a diabetes,
aumento da esperança média na diabetes, na doença coroná- tégia da saúde para todos e na estavam em fases distintas de
de vida acentuam as pressões ria, em vários tipos de carcino- sustentabilidade de sistemas de desenvolvimento mais de 170
sobre os sistemas de saúde e as ma, em patologia intestinal in- saúde com base na universalida- novas moléculas, o que faz
respetivas finanças públicas. flamatória, etc. de e equidade”. pressupor que, a breve prazo,
As ditas doenças crónicas não A sociedade deveria entender A diabetes constitui em Portugal o a inovação acarretará novo im-
transmissíveis tornaram-se prio- que, para que se atinjam ganhos grande problema de saúde. Com pacto na despesa global com
ritárias em saúde, constituindo em saúde, o projeto de saúde uma prevalência exponencial, esta doença.
várias delas autênticos proble- individual deverá responsabili- com um nível de investimento na O custo a nível planetário repre-
mas de saúde pública face até à zar o cidadão, não podendo ser prevenção das complicações im- sentará já mais de 1,8% do PIB
prevalência registada, mas tam- desagregado dos recursos, das parável e com a necessidade de mundial (dados de 2015).
bém devido aos seus impactos na ofertas e das estratégias que os melhorar o nível de tratamento, Da carga global de despesa,
morbimortalidade e na gestão da Estados promovem. a dimensão dos custos assusta. A dois terços estão ligados a cus-
procura de cuidados médicos e Segundo dados da Organização bibliografia médica é inequívoca: tos médicos diretos e um terço
aos custos decorrentes de assis- Mundial de Saúde (OMS) estima- a diabetes é a patologia crónica a custos indiretos, incluindo a
tência clínica. se que, em 2020, 80% do peso da que maior crescimento de despe- quebra da produtividade.
A carga global (“global burden”) globalidade das doenças (“bur- sa gera nos sistemas de saúde! Tanto assim é que, o próprio
dessas doenças vai recaindo den of disease”) nos países em Nos Estados Unidos da América Banco Mundial já recomenda
principalmente sobre os países vias de desenvolvimento esteja (EUA), os custos associados aos especificamente a necessidade
de mais baixos rendimentos. relacionado com problemas de medicamentos e dispositivos mé- de estratégias de intervenção
Parece claro que uma boa parte saúde crónicos. Ainda para a dicos na diabetes aumentaram e de gestão de recursos no pro-
desses encargos fica associado OMS, o reforço dos cuidados de 321% entre 1978 e 2011. cesso assistencial das popula-
aos custos diretos de interna- ções diabéticas!
mento hospitalar, seja com as O património histórico, social,
exacerbações, seja com as com- estrutural, técnico, científico
plicações consequentes e, tam- e de proximidade que a rede
bém obviamente, com a “fatura” do Serviço Nacional de Saúde
das comorbilidades. (SNS) em Portugal representa
Para os Estados – os seus gover- é uma mais-valia. Contudo, tar-
nos – é preciso passar a infor- da a melhorar, aperfeiçoando
mação de que uma boa fatia da quer a segurança e confian-
questão global poderia ser pre- ça dos cidadãos utilizadores,
venida por medidas pedagógi- como elevando o patamar de
cas, culturais, comunicacionais, qualidade e eficiência dos cui-
legislativas e organizativas, pro- dados dispensados.
motoras de benefícios transver- A chamada Reforma dos Cui-
sais a uma multiplicidade de dados Primários estagnou, per-
problemas de saúde e, diria, até deu gás e perdeu energia. Logo
civilizacionais. Mesmo tendo em quando ao leme teve os mento-
linha de conta o componente ge- res que sempre se reclamaram
nético em muitas delas… de seus defensores.
O exemplo mais imediato seria o Uma pena. Uma oportunidade
da prática de exercício físico re- perdida para o SNS.
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Janeiro 2018

