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Jornal Médico | CRÓNICA
A “batota” nos cuidados
de saúde primários e no SNS
AUGUSTO FIGUEIREDO
FERNANDES
Médico de família na UCSP
São Sebastião (Setúbal)
Exemplos do que foi dito são o
uso preferencial de listas obri-
MANUEL SALGADO gatórias de medicamentos não
comparticipados, cujo encargo
Médico de família na UCSP é total para o cidadão e mínimo,
São Sebastião (Setúbal) ou nulo, para o indicador de cus-
to da organização.
A outro nível, a obsessão insta-
lada e acrítica, induzida pela
tutela – Ministério da Saúde, ad-
ministrações regionais de saúde
(ARS) e agrupamentos de cen-
tros de saúde (ACES) – em favor
da criação de unidades de saúde
familiar (USF) a qualquer preço
e no final do ano, leva a que a
“criação” destas, em espaços ha- Esta situação leva a um exercí- o renascimento de Conselhos
Para avaliar a existência de com- bitacionais e outros sem quais- cio hipócrita de virar a cara para Clínicos e da Saúde com ca-
portamentos adequados está esta- quer condições de funciona- o lado, assobiar para o ar, levan- pacidade de governância, de
belecido, e universalmente aceite, mento e acessibilidades, fossem do a um mau funcionamento e rotura com o status quo insta-
o uso de ferramentas de medição tecnicamente reprovadas se a um burnout dos profissionais. lado e que, pacientemente, por
consubstanciadas sob a forma de houvesse uma avaliação séria. No plano médico contratuali- gestos simples mas de simbo-
indicadores, que no seu conjunto, Para dotar estas USF de utentes zam-se empresas de prestação lismo claro, restaurem a con-
deviam legitimar o valor da qua- e recursos humanos violam-se de serviços, aquém das neces- fiança de todos aqueles que já
lidade das organizações. compromissos contratuais com sidades existentes, de quali- dão indícios de desmobilizar
Desse valor devia depender o re- as unidades de cuidados de dade e assiduidades erráticas, e que ao longo da sua vida
conhecimento público do suces- saúde personalizados (UCSP), que levam à degradação do profissional, que já não é cur-
so, da competência e o financia- muitas vezes firmados poucos ambiente funcional pela con- ta, nos centros de saúde, nas
mento a atribuir às instituições. dias antes, recorrendo às mais flitualidade que gera com cida- UCSP e nas USF contribuíram
Na perseguição desenfreada diversas artimanhas de surri- dãos descontentes, provocando para elevar a saúde dos portu-
para atingir os melhores indi- pio e sobrecarga com promes- física e psicologicamente os gueses aos níveis que se reco-
cadores e promover resultados sas de compensação, que não profissionais de saúde já de si nhecem internacionalmente.
desajustados à realidade, em são cumpridas. sobrecarregados pelo número Urge, também, efectuar a revi-
vez de se adotarem os compor- Para “calar” as UCSP fornecem- exagerado de elementos nas são do modelo organizacional
tamentos organizacionais mais se recursos envenenados com suas listas de utentes. Estas são, dos ACES promovendo o seu re-
corretos para servir o cidadão, validade e prazos nem sempre quase sempre, transformadas dimensionamento, alargando
tendem, algumas organizações, definidos oriundos dos centros em listas de utilizadores prio- a sua autonomia e executando
a canalizar todos os esforços e de emprego e que não deveriam ritários, com as consequências contratos-programa, previamen-
imaginação para criar medidas substituir os assistentes técni- negativas que daí advém na re- te contratualizados, com um ade-
que provoquem a maximiza- cos no atendimento aos utentes, lação médico/utente. quado envelope financeiro para
ção do valor dos indicadores, mas ficar em back office no de- Para inverter este “jogo” de a sua execução.
mesmo que sejam contrárias ao sempenho de funções importan- campo inclinado e viciado, Ganham os utentes, os profissio-
bem servir, num código de pac- tes para o normal funcionamen- que alguns elementos teimam nais de saúde, a política da saú-
to do silêncio. to das unidades de saúde. em continuar a praticar, urge de e o SNS.
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Janeiro 2018

