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Jornal Médico | CRÓNICA
Formação e mais formação,
será esta a solução?
NUNO MIGUEL
PESTANA GUERRA
Interno de formação
específica em Medicina Geral
e Familiar
USF Camélias, ACES Gaia
Recentemente estive num fó- no Serviço Nacional de Saúde conta a diversidade de patolo-
rum (cuja plateia era maiorita- (SNS) e replicá-los. gias que surgem diariamente na
riamente composta por médicos Imaginem que cada serviço dis- sua consulta?
de família) onde se discutiu o ponibilizava formalmente um Obviamente que esta problemá-
ponto de situação do tratamen- número de telemóvel para onde tica não se deve unicamente aos
to da dor em Portugal. Após os se poderia ligar de modo a escla- cuidados hospitalares, mas tam-
tópicos abordados, a mensagem recer dúvidas clínicas que nos bém aos responsáveis dos cui-
sonante que pairou no ar foi que surgem? Não levaria isto a uma dados de saúde primários, que
se tinha de continuar a apostar melhoria global de cuidados? muitas vezes não promovem
na formação dos médicos de fa- Vejam por exemplo a criterio- nem divulgam apropriadamen-
mília (MF). Não existirão outras sidade/qualidade da referen- te as linhas de comunicação já
estratégias das quais nos esteja- ciação à consulta hospitalar. existentes, junto das unidades
mos a esquecer? Certamente que surgindo algu- de saúde. Tentemos sentar à
É frequente ouvir-se nos con- ma dúvida que nos deixasse no mesa todos os agentes de cuida-
gressos, reuniões formativas impasse de referenciar ou não dos de saúde de modo a anali-
e afins, que uma das soluções o doente, o contacto direto com sar, projetar e executar medidas
para a melhoria dos cuidados o colega hospitalar seria cru- realistas, integrativas e ajusta-
de saúde em determinada área cial para a respetiva orientação, das ao contexto local e nacional
passa pela formação dos MF além de ser sempre um momen- de saúde.
nessas temáticas. Se reparar- to de aprendizagem e troca de Termino em tom provocatório.
mos bem, não há serviço hos- experiências. Esta proximidade Em todos os congressos, fó-
pitalar que não organize umas de contato é muitas vezes mais runs, reuniões e afins, escuta-
jornadas a eles dirigidas onde, eficaz em termos formativos do se a total disponibilidade dos
frequentemente, os conteúdos que as clássicas formações que colegas hospitalares em dar
programáticos acabam por não vão sendo realizadas e permite, formação aos MF. O que acham
ser abordados da perspetiva da em tempo real, identificar si- de se usar parte deste tempo
Medicina Geral e Familiar, mas tuações que necessitem de uma na integração de cuidados,
sim hospitalar. Com tanta dedi- observação hospitalar mais pre- criando, a título de exemplo, li-
cação na organização de even- coce ou mesmo o envio ao ser- nhas formais de comunicação
tos formativos (que eu não deixo viço de urgência. Dentro desta e aproximação de cuidados?
de considerar relevante), acaba temática não poderia deixar de Sairíamos todos mais “ricos”
por faltar organização dentro referir a ausência de critérios no final, mas o principal bene-
dos serviços hospitalares de de referenciação à consulta hos- ficiado seria o doente.
modo a aproximar profissionais pitalar (salvo raras exceções),
de saúde que estão fisicamente que tenham sido construídos e P.S.: A meio desta reflexão des-
distantes e que dialogam quase formalmente aprovados entre cobri um programa promovido
unicamente através de um frio e os agrupamentos de centro de pela ACSS (Administração Cen-
cru Alert P1. Não é necessário saúde e os vários serviços hospi- tral dos Sistemas de Saúde) para
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descobrir a “roda” para come- talares de referência. Claro está incentivar a integração de cuida-
çarmos a estreitar laços comuni- que este trabalho seria muito dos. Deixo-vos o link: http://www.
cacionais, basta pegar nos bons time consuming, mas será que acss.min-saude.pt/2017/04/12/
exemplos de integração de cui- não seria uma ferramenta útil programa-de-incentivo-a-inte-
dados de saúde que já existem para a prática do MF tendo em gracao-de-cuidados/.
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Janeiro 2018

