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Jornal Médico   |  NACIONAL




         Internos que deixem o interior



         arriscam penalização








         Proposta de decreto-lei prevê regresso de incentivos para os internos que escolham
         hospitais no interior do país, com a condição de exercerem nesses locais durante,
         pelo menos, três anos. Caso contrário, arriscam penalização. A proposta de decreto-lei
         apresentada pelo Ministério da Saúde, além de fazer regressar as vagas preferenciais
         para vincular especialistas aos hospitais carenciados, prevê algumas alterações
         relativamente ao período de internato, ao exame de acesso e ao ano comum.









                                                 que os internos podem fazer, no máximo, 12  estudantes se sintam completamente capacita-
                                                 horas semanais de urgência.             dos para, quando acabam o curso, começarem
                                                 Na perspetiva do presidente do Conselho Na-  a exercer medicina, é evidente que o ano co-
                                                 cional do Internato Médico (CNIM), João Paulo   mum vai ter de se manter”.
                                                 Farias, o documento está “muito equilibrado”.  Embora assuma que as mudanças necessárias,
                                                 Porém, o bastonário da Ordem dos Médicos   que passam pela “redução substancial no nú-
                                                 (OM) tem outra perspetiva, garantindo que  mero de estudantes de Medicina”, vão ocorrer
                                                 é “um mau princípio obrigar os médicos a fi-  eventualmente, Miguel Guimarães considera
                                                 carem no local onde fazem formação por um  que “enquanto as coisas se mantiverem como
                                                 tempo determinado”, pois “obrigar, em de-  estão atualmente, é impossível e seria má prá-
                                                 mocracia, é sempre um mau princípio”. Para  tica acabar com o ano comum”.
             “A discriminação negativa que estipula que os médicos não
             possam concorrer ao SNS no caso de não ficarem no serviço   Miguel Guimarães, “a discriminação que tem  Quanto à possibilidade de os estudantes de Me-
             onde foram formados vai ter um efeito exatamente contrário”   que ser feita neste tipo de situações tem que  dicina terem que pagar para fazer o exame de
                     defende Miguel Guimarães    ser positiva, nunca pela negativa”, até porque,  acesso ao internato, o bastonário compreende
                                                 na sua opinião, “este tipo de medidas, mesmo  que com a mudança no exame os custos au-
                                                 com os incentivos acoplados – que não são a   mentaram, e que o Ministério da Saúde está
                                                 coisa mais importante para os médicos decidi-  apenas a “tentar salvaguardar a possibilidade
         De acordo com a informação avançada pelo  rem qual o destino que vão tomar –, não serão  de eventualmente – não é garantido – os estu-
         jornal Público, os médicos internos vão voltar  suficientes para que os médicos permaneçam”,   dantes terem de pagar uma taxa relativamente
         a receber incentivos para escolherem hospi-  quer nos serviços “carenciados”, quer no SNS.   simbólica para ajudar nos custos”.
         tais com carências na sua área de especiali-  “A discriminação negativa que estipula que os  “No entender da OM, o exame não deveria
         dade, onde terão que trabalhar durante três  médicos não possam concorrer ao SNS no caso   ter  taxas,  mas  esta  questão  merece  e  pode
         anos após o fim da formação e, caso quebrem  de não ficarem no serviço onde foram forma-  ser discutida: devem ser todos a pagar o au-
         esse contrato, ficam impedidos de trabalhar  dos vai ter um efeito exatamente contrário, ou   mento do custo, através do Estado, ou deve
         no Serviço Nacional de Saúde (SNS) durante  seja, os médicos vão optar, provavelmente, por   ser quem o faz que o deve comparticipar?”,
         três anos.                              deixar o SNS”, defende.                 questiona o responsável.
         Caso a proposta – datada de 6 de dezembro,  Já no que respeita à manutenção do ano co-  O objetivo da proposta é que o médico interno
         que ainda vai a Conselho de Ministros – seja  mum, para o bastonário, não está sequer em   que ocupe uma vaga num hospital carenciado
         aprovada, as novidades não se ficam por aqui:  questão:  “tem  que  existir  obrigatoriamente”.   na sua área de especialidade – normalmente
         o ano comum mantém-se; os candidatos po-  Defende o bastonário que “enquanto os cursos  no interior, no sul e nas ilhas – receba incen-
         dem ter que pagar para fazer o exame de aces-  de Medicina não conseguirem que o ano dito  tivos à mobilidade e tenha formação num hos-
         so ao internato; e passa a estar definido na lei  profissionalizante o seja verdadeiramente e os   pital com capacidade para tal. No final, terá de
                                                                                         se manter nesse hospital durante um mínimo
                                                                                         de três anos.
                                                                                         Os incentivos incluem um subsídio de 40% da
                                                                                         renumeração base nos primeiros três anos,
                                                                                         mais  dois  dias  de  férias,  ajudas  profissionais
                                                                                         para o cônjuge e transferência escolar dos fi-
                                                                                         lhos. Trata-se, assim, do regresso das vagas
                                                                                         preferenciais ou protocoladas, que deixaram
                                                                                         de estar contempladas num decreto-lei do an-
                                                                                         terior executivo, em 2015, pelo qual o CNIM se
                                                                                         congratula. O Bloco de Esquerda e o PCP tam-
                                                                                         bém já o tinham exigido.


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