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CRÓNICA | Jornal Médico
DESCULPEM, MAS EU LI...
Reforma: sonho ou pesadelo?
RUI CERNADAS
Médico de família
rui.cernadas@iol.pt
A repetida e ansiada medida de mas não preparada garantida- Portugal precisa via e de algum modo, orientem
alteração no regime de acesso mente. O choque do aconteci- ou aconselhem, as tomadas de
à reforma, em função da idade mento-reforma na vida das pes- de, face às decisão ou as opções que no li-
e da extensão da carreira con- soas está mal estudado, quer sob mudanças em mite promoveriam uma melhor
tributiva, em particular no que um ponto de vista clínico e psi- saúde mental e acautelariam
possa relacionar-se com as pe- cológico, quer sob a perspetiva curso e/ou às muitos dos sintomas e da pro-
nalizações consequentes à luz social e familiar. expectativas de cura de cuidados encapotados.
do modelo anterior, tornou-se As consequências ao nível da alteração real No fundo, não existem planos de
durante os dois últimos anos, gestão dos horários e dos tem- reforma a sério, para além dos
um sonho ou um pesadelo de pos livres, a alteração dos pa- das passagens produtos financeiros bancários
muitos milhares de portugueses. péis desempenhados por déca- à reforma, ou das seguradoras igualmente
E de portuguesas, diriam al- das, a perda de relacionamentos chamados de “PPR”!
guns políticos. múltiplos e o encurtamento do preparar os seus Conhecem-se relatos e publica-
De resto, o epíteto de reforma- espaço próprio, podem induzir cidadãos para ções sobre desajustamentos e
do virou mais do que moda, um perdas e ganhos, cujo balanço uma transição faltas de adaptação ao simples
anseio legítimo e talvez nem geral nunca é avaliado antes… facto da organização do tempo
sempre bem compreendido E raramente, diria, a preparação pretendida deixar de se centrar no capí-
que, mais do que refletir o fim para o evento é organizada, en- certamente, mas tulo do trabalho contratado e
de uma fase de vida, traduz um quadrada ou projectada. das deslocações e necessidades
desejo de abandonar percursos Faltam ofertas estruturadas, não preparada inerentes. Acrescerá ainda, con-
profissionais ou de atividades quer públicas, quer privadas, garantidamente soante os casos, o ganho ou a
nem sempre compensadoras ou que desenvolvam a análise pré- perda de satisfação no exercício
ainda motivadoras. profissional e na convivência no
A esperança média de vida meio ambiente respetivo.
alongou-se consideravelmente Isto é, ou a débito ou a crédito,
e, pese embora o impacto na há “contas” para fazer.
possibilidade de entrada dos Estou certo que, numa primeira
mais jovens no mundo laboral, linha de proximidade natural,
o equilíbrio financeiro da Segu- os cuidados de saúde primá-
rança Social e dos estados-pro- rios precisam de perceber esta
vidência tornou-se um exercí- questão e de se envolver numa
cio muito difícil. compreensão do fenómeno e
Por outro lado, o envelheci- na sua prevenção, sob pena de
mento demográfico do nosso terem aí um outro forte motivo
país e da Europa comunitária, de procura e consumo de cuida-
não ajudou a soluções fáceis dos de saúde.
e indolores. Os ganhos em saúde começam
De uma forma ou de outra, na capacidade de antecipar e de
Portugal precisa de, face às prever, construindo respostas
mudanças em curso e/ou às ex- ou, no mínimo, elevando os ní-
pectativas de alteração real das veis de vigília para uma deteção
passagens à reforma, preparar precoce dos problemas indivi-
os seus cidadãos para uma tran- duais e da sociedade em que vi-
sição pretendida certamente, vem e participam!
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Dezembro 2017

