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Andreia Montes | andreiamontes@jornalmedico.pt ENTREVISTA | Jornal Médico
“Temos hospitais
antiquados, com
pouco espaço e risco
significativo de
infeção hospitalar.
Há falta de recursos
humanos e os que
existem estão a
trabalhar com um
forte desgaste em
virtude do aumento
do número de casos.
As solicitações são
maiores, os doentes
e os tratamentos são
mais complexos”
anteriores, havia papéis sociais que eram
ocupados por algumas mulheres na família
e esta é uma estrutura que acabou – e bem!
– pela igualdade de género e de tratamento,
mas não temos substituto à altura que man-
tenha a coesão familiar.
JM | Quando fala de “hospicialização”, a
que é que se refere especificamente?
NM | Falo da colocação de idosos em lares.
Deixámos de ter os nossos velhos em casa, e
isso é algo que me constrange do ponto de
vista moral. Não é por colocarmos as pes-
mos estar melhor? Claro, mas não é aqui JM | Na sua opinião, a Rede de Cuidados soas neste tipo de instituições que o proble-
que estão os desafios em Oncologia. Paliativos tem a expressão necessária em ma deixa de existir. Ele continua lá, mas é
Portugal? Estarão este tipo de cuidados a menos visível. Há muitas mudanças na so-
JM | E onde estão esses desafios? chegar atempadamente à vida dos doentes? ciedade que ocorrem e que não são de ago-
NM | No envelhecimento populacional e NM | Depende das regiões do país. A esse ra. Por vezes, temos uma memória histórica
no aumento significativo da carga assisten- nível há mais dificuldades nos grandes cen- muito curta. Convinha que tivéssemos uma
cial destes doentes. Vão ser cada vez mais, tros urbanos porque a rede é mais escassa memória mais alargada, que nos permitisse
com níveis de dependência superiores, mais tendo em conta as necessidades. Nas redes compreender as nossas origens e a ligação
doentes mais velhos e a necessitar de inter- periféricas funciona francamente melhor à tribo, uma realidade que se alterou muito
venções específicas. Há um desvio da preo- porque há menos solicitações e a dimensão nos últimos vinte, trinte anos. Existem gran-
cupação das pessoas para o comprimido das áreas é mais pequena. Tem também a des assimetrias significativas a nível geográ-
novo, que apareceu agora. Contudo, o ver- ver com a origem da própria rede e a for- fico, entre o norte e o sul. Por outro lado, o
dadeiro desafio reside no cuidado porque ma como ela foi criada. Julgo que tem ha- recente fenómeno da emigração veio retirar
sabemos que a grande diferença nos resul- vido um desenvolvimento significativo nos uma “fatia” muito importante e ativa à so-
tados depende das primeiras abordagens e últimos tempos com o aumento do número ciedade. Vamos pagar por isso em termos de
para a maioria dos médicos esta deve ser de vagas. Acho, por outro lado, que o pro- cuidado, do contacto humano e atenção.
cirúrgica. Depende ainda do diagnóstico blema dos Cuidados Paliativos não se re-
atempado e da terapêutica adequada. Não sume nem de perto nem de longe à rede e JM | Ainda associamos muito este tipo de
é apenas um problema médico, é também aos centros que tratam estes doentes. É um cuidados ao fim da vida e isso conduz a um
social. Como é que vamos tomar conta desta problema global, da família alargada, que afastamento? De que mudança precisamos
população envelhecida? Os níveis de natali- era a principal estrutura de suporte, tanto para distinguir aquilo que são os cuidados
dade diminuíram e houve, simultaneamen- do fim de vida, como dos idosos. Aquilo a de fim de vida e os cuidados paliativos?
te, um aumento da eficácia da Medicina, que que estamos a assistir é a uma excessiva NM | Infelizmente. E voltamos à questão
faz com que, apesar de tudo, as pessoas vi- medicalização e “hospicialização” da popu- histórica: “cuidado paliativo” era um termo
vam mais e melhor. Mas a carga assistencial lação mais velha que é inevitável porque é ofensivo porque se apresentava em oposi-
que as famílias têm é cada vez maior. assim que as pessoas vivem. Nas gerações ção a um cuidado radical, que vai à raiz do
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Dezembro 2017

