Page 9 - JM n.º 82
P. 9

Andreia Montes | andreiamontes@jornalmedico.pt                                         ENTREVISTA   |  Jornal Médico



                                                                                         “Temos hospitais
                                                                                         antiquados, com

                                                                                         pouco espaço e risco
                                                                                         significativo de
                                                                                         infeção hospitalar.
                                                                                         Há falta de recursos
                                                                                         humanos e os que
                                                                                         existem estão a
                                                                                         trabalhar com um
                                                                                         forte desgaste em
                                                                                         virtude do aumento

                                                                                         do número de casos.
                                                                                         As solicitações são
                                                                                         maiores, os doentes
                                                                                         e os tratamentos são
                                                                                         mais complexos”








                                                                                         anteriores, havia papéis sociais que eram
                                                                                         ocupados por algumas mulheres na família
                                                                                         e esta é uma estrutura que acabou – e bem!
                                                                                         – pela igualdade de género e de tratamento,
                                                                                         mas não temos substituto à altura que man-
                                                                                         tenha a coesão familiar.

                                                                                         JM | Quando fala de “hospicialização”, a
                                                                                         que é que se refere especificamente?
                                                                                         NM | Falo da colocação de idosos em lares.
                                                                                         Deixámos de ter os nossos velhos em casa, e
                                                                                         isso é algo que me constrange do ponto de
                                                                                         vista moral. Não é por colocarmos  as pes-
         mos estar melhor? Claro, mas  não é aqui  JM | Na sua opinião, a Rede de Cuidados  soas neste tipo de instituições que o proble-
         que estão os desafios em Oncologia.     Paliativos tem a expressão necessária em  ma deixa de existir. Ele continua lá, mas é
                                                 Portugal? Estarão este tipo de cuidados a  menos visível. Há muitas mudanças na so-
         JM | E onde estão esses desafios?       chegar atempadamente à vida dos doentes?  ciedade que ocorrem e que não são de ago-
         NM |  No envelhecimento populacional e  NM | Depende das regiões do país. A esse   ra. Por vezes, temos uma memória histórica
         no aumento significativo da carga assisten-  nível há mais dificuldades nos grandes cen-  muito curta. Convinha que tivéssemos uma
         cial destes doentes. Vão ser cada vez mais,  tros urbanos porque a rede é mais escassa   memória mais alargada, que nos permitisse
         com níveis de dependência superiores, mais  tendo em conta as necessidades. Nas redes   compreender as nossas origens e a ligação
         doentes mais velhos e a necessitar de inter-  periféricas funciona francamente melhor  à tribo, uma realidade que se alterou muito
         venções específicas. Há um desvio da preo-  porque há menos solicitações e a dimensão   nos últimos vinte, trinte anos. Existem gran-
         cupação das pessoas para o comprimido  das áreas é mais pequena. Tem também a  des assimetrias significativas a nível geográ-
         novo, que apareceu agora. Contudo, o ver-  ver com a origem da própria rede e a for-  fico, entre o norte e o sul. Por outro lado, o
         dadeiro  desafio  reside  no  cuidado  porque  ma como ela foi criada. Julgo que tem ha-  recente fenómeno da emigração veio retirar
         sabemos que a grande diferença nos resul-  vido um desenvolvimento significativo nos   uma “fatia” muito importante e ativa à so-
         tados depende das primeiras abordagens e  últimos tempos com o aumento do número  ciedade. Vamos pagar por isso em termos de
         para  a  maioria  dos  médicos esta deve ser  de vagas. Acho, por outro lado, que o pro-  cuidado, do contacto humano e atenção.
         cirúrgica. Depende ainda  do  diagnóstico  blema dos Cuidados Paliativos não se re-
         atempado  e da  terapêutica  adequada.  Não  sume nem de perto nem de longe à rede e   JM | Ainda associamos muito este tipo de
         é apenas um problema médico, é também  aos centros que tratam estes doentes. É um   cuidados ao fim da vida e isso conduz a um
         social. Como é que vamos tomar conta desta   problema global, da família alargada, que  afastamento? De que mudança precisamos
         população envelhecida? Os níveis de natali-  era a principal estrutura de suporte, tanto  para distinguir aquilo que são os cuidados
         dade diminuíram e houve, simultaneamen-  do fim de vida, como dos idosos. Aquilo a  de fim de vida e os cuidados paliativos?
         te, um aumento da eficácia da Medicina, que  que estamos a assistir é a uma excessiva   NM | Infelizmente. E voltamos à questão
         faz com que, apesar de tudo, as pessoas vi-  medicalização e “hospicialização” da popu-  histórica: “cuidado paliativo” era um termo
         vam mais e melhor. Mas a carga assistencial   lação mais velha que é inevitável porque é   ofensivo  porque se apresentava em oposi-
         que as famílias têm é cada vez maior.   assim que as pessoas vivem. Nas gerações   ção a um cuidado radical, que vai à raiz do


                                                                  9
                                                             Dezembro 2017
   4   5   6   7   8   9   10   11   12   13   14