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Jornal Médico | ENTREVISTA
forma ou de outra. Há regiões em que há
menos mortalidade por cancro do colo do
útero e há mais em relação à mama ou vi-
ce-versa. Há variações que apontam para a
necessidade de melhorias locais, com mu-
danças legislativas e investimento em políti-
cas preventivas, por exemplo, e no relatório
estão demonstradas essas assimetrias.
JM | Sob esse aspeto, considera que as al-
terações legislativas que têm sido feitas,
nomeadamente na área do tabagismo,
têm sido suficientes?
NM | Essas alterações têm tido um impacto
positivo. Aliás, pelo segundo ano consecu-
tivo temos uma diminuição nos níveis da
mortalidade no sexo masculino associados
ao cancro do pulmão. Por outro lado, conti-
nuamos a ter um aumento muito significa-
tivo na mortalidade no sexo feminino que,
embora seja inferior à do sexo masculino,
está a aproximar-se. As chamadas “assime-
trias de género” estão a acabar e, portanto,
arriscamo-nos a ter mortalidades semelhan-
tes, o que representa um aumento significa-
tivo da mortalidade do sexo feminino por
cancro do pulmão.
JM | Estamos a conseguir adiar o fim da
vida?
NM | Sim, as pessoas morrem cada vez mais
tardiamente. Quando analisamos o índice
de mortalidade padronizada verificamos
uma diminuição, o que corresponde a um
aumento da idade na data da morte. Há
um aumento da incidência e a mortalidade
mantém-se estável.
JM | E como é que estamos a conseguir?
NM | De diversas formas, nomeadamente,
através de tratamentos mais eficazes e diag-
nósticos mais precoces. JM | Essas queixas são fundamentadas?
NM | Eventualmente sim. A experiência
JM| Morrer mais tarde é, em Portugal, si- humana é toda muita semelhante, e os in-
nónimo de viver melhor? quéritos também são aplicados de modo
NM | (Silêncio) Essa é uma boa questão… é aproximado, com respostas muito fechadas
uma área na qual temos de evoluir. Sabe- e cabe-nos fazer uma análise. Podemos ter
mos que a morbilidade nas pessoas mais menos cuidados no apoio, menos comodida-
velhas é significativa e é melhor comparati- de e conforto em algumas áreas hospitala-
vamente a muitos outros países da Europa. “Se eu posso garantir que res. Temos de nos preocupar mais sobretudo
Habitualmente, este índice é calculado pela não vai haver violações com a qualidade e menos com a “quantida-
perceção que as pessoas têm e a verdade é na plataforma? Só se eu de de vida”. Este é um assunto controverso,
que nós somos um bocado fatalistas. Temos não tenho respostas fechadas para isto…
uma forma derrotista de nos encararmos e fosse tolo, não é? Não
nos referirmos a nós próprios, valorizando existem, hoje em dia, JM | Porque não as há.
mais a parte negativa e desvalorizando a po- NM | Eu não conheço, mas seguramente
sitiva. É a nossa maneira de ser, não é exclu- segurança nos meios que é necessário trabalhar mais nesta área
sivamente nossa, mas somos assim. Quando informáticos a 100% de investigação para que possamos saber
analisamos os dados do relatório da OCDE quando devemos valorizar ou não este tipo
a este propósito percebemos que, em Portu- como não há nada no SNS de queixas. Podemos andar à procura de de-
gal, se passou a morrer bastante menos, e há que o garanta em relação feitos, mas “estamos muito bem no retrato”
uma série de complicações que diminuíram, aos dados que já lá estão. quando somos comparados com os nossos
mas as pessoas continuam a ser muito quei- parceiros europeus.
xosas. Temos de atender estas queixas. Não Contudo, a preocupação
podemos simplesmente desvalorizá-las e di- com a segurança dos JM | Ao nível de países como a Suécia?
zer que não existem ou que são só da nossa NM | A Suécia tem resultados melhores que
maneira de ser. dados tem aumentado” nós em termos de mortalidade. Se podería-
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Dezembro 2017

