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Jornal Médico   |  ENTREVISTA



         “As chamadas                            MORTALIDADE POR CANCRO DO PULMÃO
         ‘assimetrias

         de género’ estão a
         acabar e, portanto,
         arriscamo-nos a
         ter mortalidades
         semelhantes,
         o que representa
         um aumento
         significativo
         da mortalidade

         do sexo feminino por
         cancro do pulmão”




                                                 FONTE: INE, 2017/ Programa Nacional para as Doenças Oncológicas





         problema. Cuidado  paliativo consistia em   maneira de trabalhar em rede e na forma de  JM | Considera excessiva?
         esconder  a doença com um pálio (manto).   ligar os cuidados de saúde primários aos hos-  NM | A frequência com que os produzo parece-
         Eram, precisamente, as pessoas que faziam  pitalares. Este é um grande desafio: grande   me excessiva e a expectativa é que, no futuro,
         tratamentos radicais quem criticava os ou-  parte dos cuidados ditos paliativos deveriam  ela aumente. Há alguns obstáculos burocráti-
         tros por estarem a esconder a doença com   ser realizados no domicílio.         cos porque também existe receio e necessidade
         um manto em vez de a tratar. Hoje em dia,                                       de controlar a fraude neste tipo de processos.
         só faz sentido falar em Cuidados Paliativos  JM | E há muitos especialistas a defender
         quando as prioridades se alteram e priori-  essa ideia?                         JM | Que palavras gostaria de dirigir aos
         zamos o conforto em detrimento de tudo o  NM | Claro que sim. Mas mais importante   futuros  oncologistas  do  nosso  país?  Na
         resto porque a esperança de resolver os ou-  do que isso é o facto de haver muitos doen-  sua opinião, Portugal precisa de mais on-
         tros problemas é nula ou quase nula. Tratar  tes a precisar disso.              cologistas?
         os sintomas é a obrigação de qualquer mé-                                       NM | O país precisa, seguramente, de mais
         dico independentemente da fase da doença   JM | E existe abertura para essa mudança?  oncologistas!  Esta  é  uma  especialidade  de
         e, por isso, não convém confundir paliação  NM | Por parte de quem?             futuro onde os desafios vão sendo cada vez
         com tratamento de sintomas. Se assim fosse,                                     maiores. Estima-se que o aumento do núme-
         um médico que tratasse um enfarte agudo  JM | De quem decide.                   ro de doentes ronde os 3% ao ano e sabemos
         do miocárdio, que dá uma dor imensa, não  NM | De quem decide, sim, mas as coisas não  que cada doente vai ter mais necessidades.
         lhe tratava a dor. A necessidade de cuidados   se fazem por revoluções. As escolas vão-se   Hoje em dia, é muito mais desafiante ser on-
         continuados e de ajuda às pessoas não tem a  impondo e este é um caminho que se percor-  cologista do que há 10 anos. As convulsões
         ver com o fim de vida, mas com a perda de  re, mas julgo que é para onde devemos ir. O   científicas  que  se  colocam  à  especialidade
         capacidades. As doenças degenerativas, que   que é que joga contra mim e contra esta op-  são imensas. Indiscutivelmente, esta é uma
         já são uma preocupação do presente, ainda  ção? A falta de apoio familiar. Não posso ter   área com muito futuro e trabalho associados.
         nos vão colocar mais desafios no futuro.  pessoas isoladas a receber este tipo de cuida-
                                                 dos…. Tenho noção que este vai ser um cons-
         JM | E como é que vamos distinguir esta  trangimento maior. Por tudo isto, a criação
         questão dos cuidados paliativos juntos de  da figura do cuidador informal é importante
         médicos e doentes?                      e está na ordem do dia. Os empregos que ve-
         NM | Não vamos distinguir, vai continuar   mos hoje em dia vão mudar muito no espaço
         a haver uma enorme discussão nas próxi-  de 20 anos. Acho que, por outro lado, ser cui-  “Estamos a conseguir
         mas décadas.                            dador (profissional) vai ser uma profissão de
                                                 futuro pela necessidade da sociedade.   adiar o fim da vida
         JM | Para doentes e médicos?                                                    de diversas formas,
         NM | Sim, para doentes e médicos. A conce-  JM | Foi publicado um estudo no âmbito
         ção que cada um vai ter, de acordo com as   do 14.º Congresso Nacional de Oncologia   nomeadamente,
         necessidades e experiências, vai ser variável.   em que mais de metade dos doentes afir-  através de
         Obviamente que temos de assistir os doentes   ma que existe muita burocracia naquilo   tratamentos
         no presente e de responder às suas necessi-  que é o acesso aos seus direitos. Concorda
         dades, adequando o tratamento aos seus sin-  com esta ideia? É-lhe familiar?    mais eficazes e
         tomas e saber quando é que optar por cui-  NM | É-me familiar. A quantidade de rela-  diagnósticos mais
         dados  paliativos  é  uma  prioridade...  Temos  tórios que eu tenho de produzir é, na minha
         muito  para  caminhar,  particularmente  na  opinião, excessiva.                precoces”


                                                                   10
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