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Jornal Médico   |  CRÓNICA



















                                       A ajuda dos doentes



                                       no Plano de Cuidados



         JOÃO ANTUNES

         Interno de formação
         específica em Medicina
         Geral e Familiar
         USF Brás Oleiro
                                       acredito que nós médicos estamos  Como  interno  de  Medicina  Geral   da ajuda que o doente represen-
                                       formatados  mentalmente  para   e  Familiar,  tenho  sentido  que  os   ta para si mesmo, ele também
                                       exercer a nossa milenar atividade   algoritmos  diagnósticos  e  tera-  pode ser uma grande ajuda para
                                       prescritora. O facto de estudarmos   pêuticos que estudo, as normas de   o médico. Vivemos no mundo da
                                       exaustivamente os tratamentos de   orientações clínica e até os indica-  informação e devemos admitir
                                       cada entidade clínica, faz-nos es-  dores de qualidade por vezes me   que, apesar de serem abundan-
                                       quecer que o doente tem, grande  distanciam da realidade, isto é, o   tes as fontes de conteúdos impre-
         As preocupações do doente (a   parte das vezes, as suas próprias  doente que está à minha frente. A   cisos, os cidadãos estão hoje mais
         sua dolência) e as preocupações   estratégias para lidar com os pro-  resposta para aquela queixa vem   bem  informados  do  que  a  ge-
         do médico (que constrói raciocí-  blemas.  Lembro-me  de  uma  se-  à minha mente de forma quase   ração dos nossos avós. Quantas
         nios clínicos de acordo com  as   nhora idosa que, a par de outros  automática, porque já a li em qual-  vezes, ao terminar a consulta, o
         doenças que estudou) nem sem-  motivos de consulta, se queixou   quer lado, e esqueço que o doente   doente me pergunta se não deve
         pre são coincidentes.         na minha consulta da sua sensa-  tem ainda uma palavra a dizer, e   tomar a vacina da gripe, se não
         Idealmente, uma consulta mé-  ção  de  ansiedade  e  da  sua  “afli-  as suas soluções podem ser mais   deve fazer a colpocitologia, se
         dica  deve estar estruturada  de   ção no peito”. Depois de explorar  eficazes e incrivelmente criativas.   não deve efetuar este ou aquele
         forma a permitir que haja con-  as condições que poderiam estar   Frequentemente me dizem no fi-  rastreio. Considero essas pergun-
         senso entre os pontos de  vista   na  origem  dessa  sua  ansiedade,  nal da consulta “isto deve ser ner-  tas uma mais-valia para a minha
         destes dois intervenientes,  mé-  acabei por fazer aquilo que pare-  vos, não deve, doutor?”. A maior   prática clínica, e frequentemente
         dico e doente. Após a fase inicial   cia estar premeditado – prescrevi  parte das vezes valido essa hipó-  admito: “já me ia esquecer, ainda
         de receção e acolhimento, o mé-  uma benzodiazepina. Na consulta  tese, e acredito que os doentes   bem que me perguntou”.
         dico deverá ouvir os motivos de   seguinte perguntei-lhe como esta-  saem do consultório mais calmos,   Em  suma, tenho procurado en-
         consulta que o doente pretende   va,  mas  a  senhora  confessou-me   porque apenas precisavam de   carar o doente como meu aliado
         que sejam abordados, negociar   que não tinha chegado a comprar  uma validação para a explicação   quando estabeleço o Plano de
         prioridades e agendar os temas   o fármaco: disse-me que quando   a que eles próprios chegaram.   Cuidados. Acredito que isso faci-
         que  serão abordados naquela   lhe ocorriam essas aflições, ia para   O papel do doente na hora de   lita o empoderamento do doente
         consulta. Seguidamente, fará a   o “quintal cuidar das plantas, que   elaborar um plano não se esgota   no seu autocuidado e facilita-me
         entrevista  clínica centrada no   isso é que me dá paz!”.   nestes pontos que referi. Além   a mim na hora de tomar decisões.
         doente –  explorando  as  suas
         crenças e as suas emoções –  e
         depois a entrevista centrada no
         médico – isto é, irá colocar per-
         guntas  mais  específicas  de  que
         precisa para melhor poder ca-
         racterizar aquele sintoma ou si-
         nal, o contexto familiar, etc. Se-
         guir-se-á o exame físico e, após
         a elaboração das hipóteses de
         diagnóstico, o médico irá propor
         um Plano de Cuidados.
         Por vezes, fico com a sensação de
         que nesta fase da consulta – o Pla-
         no de Cuidados – o papel do doen-
         te como interveniente é frequen-
         temente descurado. Regra geral,


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