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Jornal Médico | EDIÇÃO ESPECIAL
TERAPÊUTICAS BIOLÓGICAS EM PNEUMOLOGIA
ESTRATÉGIAS EMERGENTES NO TRATAMENTO
DA ASMA EOSINOFÍLICA
Os desafios na prática clínica decorrentes do diagnóstico e tratamento da asma grave
não controlada e o papel do mepoluzimab na terapêutica da asma grave refratária
eosinofílica estiveram em destaque numa sessão do XXXII Congresso de Pneumologia,
moderada pelo presidente da European Respiratory Society (ERS), Guy Joos.
cidos, mas que se sabe poderem ser agrava- dois anti-IL5 (mepolizumab e reslizumab).
dos pelo stress oxidativo e pela inflamação Quanto ao primeiro, esclarece Cláudia Lou-
sistémica que decorre do mesmo. reiro, a grande limitação prende-se com o
A relação entre via eosinofílica e as compo- facto de a seleção de doentes feita com base
nentes inerentes ao não controlo da doença na IgE poder deixar de fora alguns respon-
(obstrução e agudizações) está estabeleci- dedores, dado o que se conhece acerca da
da, embora a associação entre eosinofilia e sua utilização off-label em asmas eosinofí-
obstrução configure um desafio adicional, licas associadas a polipose nasal, ainda que
devido à “polémica” necessidade de classifi- falte evidência de ensaios clínicos aleatori-
cação como ACOS – acrónimo que designa a zados a suportá-lo.
síndrome de sobreposição de asma e doença Várias questões estão ainda sem resposta
pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). No en- no que concerne à terapêutica anti-IL5, cuja
tender de Cláudia Loureiro, “antes de colo- seleção de doentes se faz com base na conta-
car qualquer rótulo, é preferível e desejável gem de eosinofílicos. Qual o melhor valor de
aprofundar o conhecimento sobre esta asso- cut-off a utilizar ou a partir de que valor há
Cláudia Loureiro ciação, na medida em que essa informação relação com os outcomes da doença foram
tem impacto na decisão terapêutica”. algumas das identificadas pela preletora.
No plano terapêutico, são poucos os biomar- Face aos inúmeros e expressivos desafios
cadores disponíveis e a sua interpretação impostos pela asma grave não controlada,
ainda não é totalmente conhecida, ressalva Cláudia Loureiro concluiu que estes doentes
Coube à pneumologista do Centro Hospi- a pneumologista do CHUC, consciente de devem ser referenciados para consultas es-
talar e Universitário de Coimbra (CHUC), que estes dados são imprescindíveis na ado- pecíficas e especializadas, onde possam ser
Cláudia Loureiro, falar sobre os inúmeros e ção da tão desejada terapêutica perfil-orien- acompanhados por profissionais mais expe-
importantes desafios que a asma grave não tada. Atualmente, existem três agentes bio- rientes na abordagem desta doença, de uma
controlada coloca na prática clínica, desde lógicos aprovados e disponíveis em Portugal forma protocolada, sistematizada e multi-
logo a identificação correta destes doentes. neste contexto: um anti-IgE (omalizumab) e disciplinar.
Para chegar a este diagnóstico importa, an-
tes de mais, questionar a ação do doente (em
termos de adesão à terapêutica, evicção de IMPACTO DE MEPOLUZIMAB NA ASMA GRAVE REFRATÁRIA EOSINOFÍLICA
desencadeantes de agudizações e técnica
inalatória) e a ação do médico, proceder a • O pneumologista britânico Neil Martin apresentou dados dos principais estudos de fase III do mepoluzimab (MENSA,
um diagnóstico diferencial completo – isto
porque, “há muitas patologias que se con- SIRIUS, COLUMBIA e COSMOS), de forma a mostrar o papel deste agente biológico no tratamento da asma grave
fundem com a asma que podem sobrepor-se refratária eosinofílica.
a ela”, explica a médica – e tratar as comor- • O mepolizumab é um anticorpo monoclonal humanizado (IgG1, kappa), dirigido à interleucina-5 humana (IL-5) com
bilidades frequentes. elevada afinidade e especificidade. O mepolizumab inibe, com potência nanomolar, a bioatividade da IL-5 por bloqueio
A heterogeneidade dos doentes e da própria da ligação da IL-5 à cadeia alfa do complexo recetor da IL-5 expresso na superfície celular do eosinófilo, inibindo
doença acresce a este desafio inicial, como assim a sinalização da IL-5 e reduzindo a produção e sobrevivência de eosinófilos.
se depreende da evidência que identifica
três apresentações fenotípicas mais gra- • Os efeitos farmacodinâmicos descritos no RCM do produto mostram que após uma dose de 100 mg administrada
ves, que se distinguem entre si pela idade por via subcutânea a cada 4 semanas durante 32 semanas, os eosinófilos sanguíneos foram reduzidos de uma
de início da doença, o tipo de inflamação, o contagem média geométrica na linha de base de 290 para 40 células/μl à semana 32 (n=182), uma redução de 84%
compromisso funcional e a presença de obe- comparativamente ao placebo. Esta redução significativa foi observada no espaço de quatro semanas de tratamento.
sidade, e que têm mecanismos moleculares • Em estudos clínicos, um total de 915 indivíduos com asma eosinofílica refractária grave recebeu uma dose subcutânea
subjacentes diferentes. São eles os eosinofí- ou uma dose intravenosa de mepolizumab durante estudos clínicos de 24 a 52 semanas de duração. As reações adversas
licos (via Th2 e/ou ILC2) e os relacionados mais frequentemente notificadas durante o tratamento foram cefaleia, reações no local de administração e dorsalgia.
com a obesidade, que estão menos esclare-
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Março 2017

