Page 18 - JM Especial XXXII Congresso Penumologia
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Jornal Médico   |  EDIÇÃO ESPECIAL



         TERAPÊUTICAS BIOLÓGICAS EM PNEUMOLOGIA

         ESTRATÉGIAS EMERGENTES NO TRATAMENTO




         DA ASMA EOSINOFÍLICA






         Os desafios na prática clínica decorrentes do diagnóstico e tratamento da asma grave
         não controlada e o papel do mepoluzimab na terapêutica da asma grave refratária
         eosinofílica estiveram em destaque numa sessão do XXXII Congresso de Pneumologia,
         moderada pelo presidente da European Respiratory Society (ERS), Guy Joos.





                                                 cidos, mas que se sabe poderem ser agrava-  dois anti-IL5 (mepolizumab e reslizumab).
                                                 dos pelo stress oxidativo e pela inflamação  Quanto ao primeiro, esclarece Cláudia Lou-
                                                 sistémica que decorre do mesmo.         reiro, a grande limitação prende-se com o
                                                 A relação entre via eosinofílica e as compo-  facto de a seleção de doentes feita com base
                                                 nentes inerentes ao não controlo da doença  na IgE poder deixar de fora alguns respon-
                                                 (obstrução e agudizações) está estabeleci-  dedores, dado o que  se conhece acerca  da
                                                 da, embora a associação entre eosinofilia e   sua utilização  off-label em asmas eosinofí-
                                                 obstrução  configure  um  desafio  adicional,  licas associadas a polipose nasal, ainda que
                                                 devido à “polémica” necessidade de classifi-  falte evidência de ensaios clínicos aleatori-
                                                 cação como ACOS – acrónimo que designa a   zados a suportá-lo.
                                                 síndrome de sobreposição de asma e doença   Várias questões estão ainda sem resposta
                                                 pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). No en-  no que concerne à terapêutica anti-IL5, cuja
                                                 tender de Cláudia Loureiro, “antes de colo-  seleção de doentes se faz com base na conta-
                                                 car qualquer rótulo, é preferível e desejável   gem de eosinofílicos. Qual o melhor valor de
                                                 aprofundar o conhecimento sobre esta asso-  cut-off a utilizar ou a partir de que valor há
         Cláudia Loureiro                        ciação, na medida em que essa informação  relação com os outcomes da doença foram
                                                 tem impacto na decisão terapêutica”.    algumas das identificadas pela preletora.
                                                 No plano terapêutico, são poucos os biomar-  Face  aos  inúmeros  e  expressivos  desafios
                                                 cadores  disponíveis e a sua interpretação   impostos pela asma grave não controlada,
                                                 ainda não é totalmente conhecida, ressalva   Cláudia Loureiro concluiu que estes doentes
         Coube  à  pneumologista do  Centro Hospi-  a pneumologista do CHUC,  consciente  de  devem ser referenciados para consultas es-
         talar e Universitário de Coimbra (CHUC),  que estes dados são imprescindíveis na ado-  pecíficas e especializadas, onde possam ser
         Cláudia Loureiro, falar sobre os inúmeros e  ção da tão desejada terapêutica perfil-orien-  acompanhados por profissionais mais expe-
         importantes desafios que a asma grave não  tada. Atualmente, existem três agentes bio-  rientes na abordagem desta doença, de uma
         controlada coloca na prática clínica, desde  lógicos aprovados e disponíveis em Portugal  forma protocolada, sistematizada e multi-
         logo a identificação correta destes doentes.  neste contexto: um anti-IgE (omalizumab) e   disciplinar.
         Para chegar a este diagnóstico importa, an-
         tes de mais, questionar a ação do doente (em
         termos de adesão à terapêutica, evicção de   IMPACTO DE MEPOLUZIMAB NA ASMA GRAVE REFRATÁRIA EOSINOFÍLICA
         desencadeantes de agudizações e técnica
         inalatória) e a ação do médico, proceder a   • O pneumologista britânico Neil Martin apresentou dados dos principais estudos de fase III do mepoluzimab (MENSA,
         um  diagnóstico diferencial completo –  isto
         porque,  “há  muitas  patologias  que  se  con-  SIRIUS, COLUMBIA e COSMOS), de forma a mostrar o papel deste agente biológico no tratamento da asma grave
         fundem com a asma que podem sobrepor-se    refratária eosinofílica.
         a ela”, explica a médica – e tratar as comor-  • O mepolizumab é um anticorpo monoclonal humanizado (IgG1, kappa), dirigido à interleucina-5 humana (IL-5) com
         bilidades frequentes.                      elevada afinidade e especificidade. O mepolizumab inibe, com potência nanomolar, a bioatividade da IL-5 por bloqueio
         A heterogeneidade dos doentes e da própria   da ligação da IL-5 à cadeia alfa do complexo recetor da IL-5 expresso na superfície celular do eosinófilo, inibindo
         doença acresce a este desafio inicial, como   assim a sinalização da IL-5 e reduzindo a produção e sobrevivência de eosinófilos.
         se  depreende  da  evidência  que  identifica
         três apresentações  fenotípicas mais  gra-  • Os efeitos farmacodinâmicos descritos no RCM do produto mostram que após uma dose de 100 mg administrada
         ves, que se distinguem entre  si pela idade   por via subcutânea a cada 4 semanas durante 32 semanas, os eosinófilos sanguíneos foram reduzidos de uma
         de início da doença, o tipo de inflamação, o   contagem média geométrica na linha de base de 290 para 40 células/μl à semana 32 (n=182), uma redução de 84%
         compromisso funcional e a presença de obe-  comparativamente ao placebo. Esta redução significativa foi observada no espaço de quatro semanas de tratamento.
         sidade, e que têm mecanismos moleculares   • Em estudos clínicos, um total de 915 indivíduos com asma eosinofílica refractária grave recebeu uma dose subcutânea
         subjacentes diferentes. São eles os eosinofí-  ou uma dose intravenosa de mepolizumab durante estudos clínicos de 24 a 52 semanas de duração. As reações adversas
         licos (via  Th2  e/ou  ILC2) e  os  relacionados   mais frequentemente notificadas durante o tratamento foram cefaleia, reações no local de administração e dorsalgia.
         com a obesidade, que estão menos esclare-


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