Page 35 - JM n.º 74
P. 35

esPeciaL  – xxiv congresso De PneumoLogia Do norte  |  jornal médico



         (nomeadamente,  em  termos  eletrocardio-
         gráficos, no caso da utilização de fármacos
         de última geração).
         Ainda  de  acordo  com  a  responsável  do
         CRRTM-Norte,  “o  doente  deverá  perma-
         necer  internado  até  haver  conversão  da
         cultura bacteriológica, tendo já o perfil de
         suscetibilidade  a  fármacos  estabelecido,
         de forma a garantirmos tem o regime tera-
         pêutico adequado instituído no momento
         da alta”.
         Raquel Duarte adverte que “um doente com
         TBMR  não  pode  ser  internado  num  qual-
         quer serviço hospitalar, porque pior do que
         a ocorrência da transmissão de uma TBMR
         na comunidade é essa transmissão ocorrer
         no  hospital  (nosocomial)”.  Assim,  adianta,
         o doente com TBMR deve ser internado em
         regime de isolamento de via aérea, até po-
         der regressar à comunidade. Cabe ao Centro
         de Diagnóstico Pneumológico (CDP) e CRR a
         responsabilidade pelo tratamento no domi-
         cílio de doentes que não podem ser interna-
         dos e pelo seguimento dos doentes após alta
         hospitalar. Para além disso, quer o interna-
         mento, quer o esquema terapêutico devem
         ser combinados com o CRR, “para garantir
         que o doente faz a toma correta da terapêu-  meses, sendo que destes quatro a seis meses   livery) que recomendam este tratamento e
         tica no CDP da sua área de residência”.  são de fase intensiva e cinco a seis meses de   “estudos de custo-efetividade mais recentes
         Atualmente,  as  novas  orientações  para  o   fase de continuação (com injetáveis e Hh).   têm demonstrado que o tratamento preven-
         tratamento da TBMR (ver tabela) mostram   São elegíveis para este esquema terapêuti-  tivo  dos  contatos  de  doentes  com  TBMR,
         que o doente deve iniciar a terapêutica com  co adultos e crianças sem utilização prévia   baseando-se  em  dois  fármacos  com  susce-
         fluoroquinolona (com confirmação de sus-  de fármacos de 2.ª linha e sem resistência   tibilidade comprovada no caso índice e ten-
         cetibilidade).  “Fármacos  adicionais  como  a  qualquer  fármaco  dos  grupos  A  ou  B.  do como esqueleto uma fluoroquinolona e
         a  Bdq  e  a  Dlm  são  relativamente  novos  e   Apresentam-se como critérios de exclusão:   etambutol, desde que suscetível a ambos, é
         estão reservados para o tratamento da TB   gravidez, infeção por VIH, doença extrapul-  custo-efetivo”.
         extremamente  resistente,  apresentando   monar  e  impossibilidade  de  utilizar  qual-  Em jeito de conclusão, Raquel Duarte sub-
         efeitos  adversos  graves”,  explica  a  espe-  quer fármaco da associação.     linha  que  “a  abordagem  da  TBMR  é  fun-
         cialista, salientando que “o PAS foi relega-  Na Europa, o Esquema de Bangladesh tem  damental,  mas  antes  de  mais,  temos  que
         do para último plano” nas recomendações   sido  difícil  de  implementar,  “porque  há  pensar  na  TB  suscetível,  porque  é  esta
         mais recentes.                          uma taxa elevada de resistência à Eto (no-  que,  ao  ser  mal  resolvida,  que  vai  resul-
         No que concerne ao esquema terapêutico na   meadamente  na  área  da  Grande  Lisboa),  tar em TBMR. Isto porque os doentes não
         TBMR, a pneumologista sustenta a necessida-  bem como uma grande dificuldade de aqui-  aderem ao tratamento, as tomas assistidas
         de de o doente fazer um mínimo de quatro a  sição de Km nos países europeus”, esclarece   diretamente não existem, os esquemas te-
         cinco fármacos na fase intensiva (PZA + um   a responsável do CRRTM-Norte, adiantando   rapêuticos  são  inadequados,  há  uma  má
         fármaco  grupo  A  +  um  fármaco  grupo  B  +   que “em Portugal, só cerca de 40% dos doen-  absorção dos fármacos pelo doente, entre
         dois fármacos grupo C). A duração do trata-  tes multirresistentes poderão vir a ter aces-  outras causas.
         mento deve variar entre os 18 e os 20 meses,   so a este esquema terapêutico, que parece
         com a fase intensiva a durar oito meses e a   trazer vantagens  do  ponto  de  vista  econó-  fLageLo Das iacs: o “PesaDeLo”
         fase de continuação (com injetáveis) cerca de   mico, mantendo a segurança e a eficácia”.  Dos surtos
         10 a 12 meses e o doente deve manter contro-  A especialista frisa a importância de os mé-
         lo clínico, analítico e bacteriológico mensal.  dicos  que  seguem  estes  doentes  saberem   A  segunda  parte  da  mesa-redonda  esteve
         De  acordo  com  Raquel  Duarte,  “o  sucesso   tratar a doença, bem como as complicações  a  cargo  do  diretor  do  Serviço  de  Doenças
         terapêutico com este esquema é muitas ve-  decorrentes  dos  eventos  adversos  graves   Infeciosas do Hospital de São João (Porto),
         zes – e inexplicavelmente – superior ao do   associados à terapêutica.          António  Sarmento,  que  abordou  o  flagelo
         tratamento da TB suscetível”.           Uma das questões emergentes no tratamen-  das  IACS  e  das  RAM,  identificando  os  de-
                                                 to da TB é “o que fazer às pessoas que es-  safios que os surtos infeciosos colocam aos
         esQuema De bangLaDesH e                 tiveram em contato com estes doentes?”. A   serviços hospitalares e revelando medidas
         tratamento Dos contatos                 este respeito, nem a Organização Mundial  preventivas e estratégias incontornáveis no
                                                 de Saúde (OMS), nem o European Centre for  combate a estas situações.
         Nos  países  em  vias  de  desenvolvimento   Disease Prevention and Control (ECDC) têm   Diz  o  especialista  que  a  infeção  nosoco-
         tem vindo a ser adotado no tratamento da   uma posição clara, justificando não existir  mial tem uma prevalência de três a 12%
         TBMR  um  esquema  “fácil,  barato,  eficaz  e  evidência suficiente que permita aceitar ou  dos  doentes  hospitalizados.  “A  pneumo-
         sem grande aumento de efeitos adversos”,   rejeitar a terapêutica preventiva nos conta-  nia corresponde a 60% das mortes por in-
         denominado Esquema de Bangladesh.       tos infetados por estirpes MR.          feção nosocomial, é a que mais mata e é
         Consiste numa associação fixa de PZA + Mfx   Contudo,  há  entidades  (TBNET  e  Harvard  particularmente  frequente  nas  unidades
         + Km + Pto + Cfz + Hh + E, durante nove a 12   Medical School Centre for Global Health De-  de cuidados intensivos (20 x >)”, refere o


                                                                 35 35
                                                              Março 2017arço 2017
                                                              m
   30   31   32   33   34   35   36   37   38   39   40