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esPeciaL – xxiv congresso De PneumoLogia Do norte | jornal médico
(nomeadamente, em termos eletrocardio-
gráficos, no caso da utilização de fármacos
de última geração).
Ainda de acordo com a responsável do
CRRTM-Norte, “o doente deverá perma-
necer internado até haver conversão da
cultura bacteriológica, tendo já o perfil de
suscetibilidade a fármacos estabelecido,
de forma a garantirmos tem o regime tera-
pêutico adequado instituído no momento
da alta”.
Raquel Duarte adverte que “um doente com
TBMR não pode ser internado num qual-
quer serviço hospitalar, porque pior do que
a ocorrência da transmissão de uma TBMR
na comunidade é essa transmissão ocorrer
no hospital (nosocomial)”. Assim, adianta,
o doente com TBMR deve ser internado em
regime de isolamento de via aérea, até po-
der regressar à comunidade. Cabe ao Centro
de Diagnóstico Pneumológico (CDP) e CRR a
responsabilidade pelo tratamento no domi-
cílio de doentes que não podem ser interna-
dos e pelo seguimento dos doentes após alta
hospitalar. Para além disso, quer o interna-
mento, quer o esquema terapêutico devem
ser combinados com o CRR, “para garantir
que o doente faz a toma correta da terapêu- meses, sendo que destes quatro a seis meses livery) que recomendam este tratamento e
tica no CDP da sua área de residência”. são de fase intensiva e cinco a seis meses de “estudos de custo-efetividade mais recentes
Atualmente, as novas orientações para o fase de continuação (com injetáveis e Hh). têm demonstrado que o tratamento preven-
tratamento da TBMR (ver tabela) mostram São elegíveis para este esquema terapêuti- tivo dos contatos de doentes com TBMR,
que o doente deve iniciar a terapêutica com co adultos e crianças sem utilização prévia baseando-se em dois fármacos com susce-
fluoroquinolona (com confirmação de sus- de fármacos de 2.ª linha e sem resistência tibilidade comprovada no caso índice e ten-
cetibilidade). “Fármacos adicionais como a qualquer fármaco dos grupos A ou B. do como esqueleto uma fluoroquinolona e
a Bdq e a Dlm são relativamente novos e Apresentam-se como critérios de exclusão: etambutol, desde que suscetível a ambos, é
estão reservados para o tratamento da TB gravidez, infeção por VIH, doença extrapul- custo-efetivo”.
extremamente resistente, apresentando monar e impossibilidade de utilizar qual- Em jeito de conclusão, Raquel Duarte sub-
efeitos adversos graves”, explica a espe- quer fármaco da associação. linha que “a abordagem da TBMR é fun-
cialista, salientando que “o PAS foi relega- Na Europa, o Esquema de Bangladesh tem damental, mas antes de mais, temos que
do para último plano” nas recomendações sido difícil de implementar, “porque há pensar na TB suscetível, porque é esta
mais recentes. uma taxa elevada de resistência à Eto (no- que, ao ser mal resolvida, que vai resul-
No que concerne ao esquema terapêutico na meadamente na área da Grande Lisboa), tar em TBMR. Isto porque os doentes não
TBMR, a pneumologista sustenta a necessida- bem como uma grande dificuldade de aqui- aderem ao tratamento, as tomas assistidas
de de o doente fazer um mínimo de quatro a sição de Km nos países europeus”, esclarece diretamente não existem, os esquemas te-
cinco fármacos na fase intensiva (PZA + um a responsável do CRRTM-Norte, adiantando rapêuticos são inadequados, há uma má
fármaco grupo A + um fármaco grupo B + que “em Portugal, só cerca de 40% dos doen- absorção dos fármacos pelo doente, entre
dois fármacos grupo C). A duração do trata- tes multirresistentes poderão vir a ter aces- outras causas.
mento deve variar entre os 18 e os 20 meses, so a este esquema terapêutico, que parece
com a fase intensiva a durar oito meses e a trazer vantagens do ponto de vista econó- fLageLo Das iacs: o “PesaDeLo”
fase de continuação (com injetáveis) cerca de mico, mantendo a segurança e a eficácia”. Dos surtos
10 a 12 meses e o doente deve manter contro- A especialista frisa a importância de os mé-
lo clínico, analítico e bacteriológico mensal. dicos que seguem estes doentes saberem A segunda parte da mesa-redonda esteve
De acordo com Raquel Duarte, “o sucesso tratar a doença, bem como as complicações a cargo do diretor do Serviço de Doenças
terapêutico com este esquema é muitas ve- decorrentes dos eventos adversos graves Infeciosas do Hospital de São João (Porto),
zes – e inexplicavelmente – superior ao do associados à terapêutica. António Sarmento, que abordou o flagelo
tratamento da TB suscetível”. Uma das questões emergentes no tratamen- das IACS e das RAM, identificando os de-
to da TB é “o que fazer às pessoas que es- safios que os surtos infeciosos colocam aos
esQuema De bangLaDesH e tiveram em contato com estes doentes?”. A serviços hospitalares e revelando medidas
tratamento Dos contatos este respeito, nem a Organização Mundial preventivas e estratégias incontornáveis no
de Saúde (OMS), nem o European Centre for combate a estas situações.
Nos países em vias de desenvolvimento Disease Prevention and Control (ECDC) têm Diz o especialista que a infeção nosoco-
tem vindo a ser adotado no tratamento da uma posição clara, justificando não existir mial tem uma prevalência de três a 12%
TBMR um esquema “fácil, barato, eficaz e evidência suficiente que permita aceitar ou dos doentes hospitalizados. “A pneumo-
sem grande aumento de efeitos adversos”, rejeitar a terapêutica preventiva nos conta- nia corresponde a 60% das mortes por in-
denominado Esquema de Bangladesh. tos infetados por estirpes MR. feção nosocomial, é a que mais mata e é
Consiste numa associação fixa de PZA + Mfx Contudo, há entidades (TBNET e Harvard particularmente frequente nas unidades
+ Km + Pto + Cfz + Hh + E, durante nove a 12 Medical School Centre for Global Health De- de cuidados intensivos (20 x >)”, refere o
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