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esPeciaL – xxiv congresso De PneumoLogia Do norte | jornal médico
ventiLação não-invasiva (vni)
na DPoc estáveL
“VNI na DPOC estável… para quem, quan-
do e como?” foi o tema apresentado pela
Prof.ª Doutora Marta Drummond, tema
esse que a especialista considera ser ainda
“insuficientemente plasmado nas normas
diversas sobre o tratamento da DPOC”. A
pneumologista começou por alertar que
“nas exacerbações de DPOC está absoluta- mafalda van zeller
mente esclarecida a mais-valia que a VNI
representa”.
No que concerne à DPOC estável, a especia-
lista apresentou algumas NOC atuais, no-
meadamente a iniciativa GOLD, “que na sua
versão mais atual diz que continua indeter-
minado o papel da VNI na DPOC estável”. A
recomendação indica ainda que “o suporte
ventilatório deve fazer-se depois de uma
hospitalização, numa fase ainda agudizada,
e quando há uma hipercapenia, avançado
até um número um pouco diferente daquele
que conhecíamos até hoje, que é uma pres- aurora Carvalho
são arterial de CO ≥ 52 mlHg”.
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Segundo a norma da Direção-Geral da Saú-
cardio-seletivos não serem utilizados, es- de (DGS), revista em 2013, “a VNI perma-
tando associados a uma menor mortalidade nece como tendo lugar na DPOC estável se
nos doentes com DPOC” e que “as estatinas houver uma hipercapenia superior a 55, ou
só fazem sentido se houver doença cardio- entre 50 e 54. Contudo, relativamente a esta
vascular subjacente, e não primariamente norma a especialista referiu que “existem
para redução de exacerbações”. critérios que não constam plasmados em
Relativamente ao tratamento, as novas NOC nenhuma outra guideline, nem foram reti-
indicam que a terapêutica broncodilatado- rados de nenhum outro artigo recente pu-
ra é a base do tratamento da DPOC, seja em blicado nesta área”. prof.ª marta drummond
monoterapia ou, cada vez mais, recorrendo Posto isto, a especialista prosseguiu a sua
a associações de broncodilatadores. Os corti- apresentação falando sobre o que lhe pa- ano, apresentava uma redução de admis-
coides inalados assumem um papel cada vez rece ser mais interessante na VNi na DPoc sões por insuficiência respiratória crónica
mais secundário. O GOLD 2017 faz um alerta estável, que “é aquilo que tem vindo a ser claramente significativa versus aqueles que
importante: “devemos escolher a terapêuti- utilizado na Alemanha, desde há mais de não foram ventilados cronicamente. Os re-
ca farmacológica, mas devemos também uma década: a VNI de alta intensidade”. Se- sultados passam de 2,44 episódios por ano
escolher um dispositivo e preocuparmo-nos gundo a pneumologista, a VNI de alta inten- de insuficiência respiratória aguda com in-
com o ensino da terapêutica inalatória”. sidade consiste em ventilar um doente com ternamento para 0,44; de 5,9 episódios de
O especialista relembrou ainda que os mé- o objetivo de o controlar o mais possível sob internamento numa enfermaria para 1,88;
dicos muitas vezes esquecem-se que a base o ponto de vista ventilatório, com elevadas e os dias em que estão internados também
do tratamento da DPOC “não é a terapêutica pressões respiratórias (com pressão inspira- reduziram significativamente.
farmacológica, mas sim a imunização, a cessa- tória positiva – IPAP – à volta de 30 cm de Um outro estudo de 2016, da Holanda, in-
ção tabágica e a reabilitação respiratória, que água) e com elevada frequência respirató- cluiu doentes com idade média de 67 anos
apresentam muito melhor custo-benefício”. ria (mais de 22 ciclos por minuto). Através que já estavam há cinco anos a fazer ven-
da análise de diversos estudos recentes, a tilação. Os resultados demonstraram que o
especialista concluiu que “esta estratégia grupo que estava a fazer VNI de alta inten-
ventilatória na DPOC estável tem demons- sidade tinha menor frequência respirató-
trado claros benefícios na sobrevida”, que ria do que aqueles que foram ventilados a
O GOLD 2017 faz um “é pouco provável que a VNI seja benéfica baixas pressões. Neste estudo foi avaliado
alerta importante: quando o doente não é hipercápnico”, “que por eletromiografia que houve um descanso
maior da musculatura respiratória no grupo
os doentes com exacerbações de DPOC de-
“devemos escolher vem ser reavaliados posteriormente para que fez alta intensidade.
a terapêutica ver se beneficiam ou não da VNI”, que “a A especialista conclui que a VNI é uma mais-
farmacológica, mas eficácia da VNI deve ser confirmada por CO valia para a DPOC estável e deixa um con-
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junto de interrogações que considera que
transcutâneo noturno” e que o objetivo te-
devemos também rapêutico deve ser direcionado para “redu- devem ser esclarecidas a breve prazo: “em
escolher um dispositivo zir mais do que 20% a pCO , pois só assim é que doentes deve ser utilizada?”; “quanto
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tempo depois de uma exacerbação se deve
possível a redução da sobrevida”.
e preocuparmo-nos Para sustentar essas conclusões, a especia- avaliar a necessidade de uma VNI?”; “a
com o ensino da lista apresentou um estudo dinamarquês, adaptação à VNI poderá ser feita em ambu-
de 2016, que demonstrou que um grupo de latório?”; e “o CO transcutâneo deve ser uti-
terapêutica inalatória” doentes que foram ventilados, ao fim de um lizado com que periodicidade?”.
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Março 2017arço 2017
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