Page 32 - JM n.º 83
P. 32

Jornal Médico   |  ESPECIAL 33.º CONGRESSO DE PNEUMOLOGIA



         ENVELHECIMENTO PULMONAR

         Vamos todos ter DPOC?







         As comissões de trabalho de Fisiopatologia Respiratória e DPOC, Tabagismo, Doenças
         do Interstício e Doenças Ocupacionais da Sociedade Portuguesa de Pneumologia
         juntaram-se, numa sessão patrocinada pela GSK, para uma reflexão sobre as
         consequências do envelhecimento pulmonar. A fronteira entre normal e patológico,
         o impacto do tabaco e de outros poluentes na saúde respiratória e a relevância
         clínica/aspetos imagiológicos a considerar nas doenças do interstício mereceram
         destaque num debate que procurou responder à questão: “Vamos todos ter DPOC?”.







                                                 As  alterações  fisiopatológicas  relacionadas   função pulmonar determina criticamente a
                                                 com a idade são transversais a todos os órgãos  saúde pulmonar.
                                                 e sistemas humanos e os pulmões não são ex-  Segundo António Jorge Ferreira, “os fatores
                                                 ceção. Como tal, e de acordo com José Reis Fer-  de stress ambientais são geralmente com-
                                                 reira, “o envelhecimento fisiológico ‘normal’   pensados ou neutralizados pela ação de cé-
                                                 em pessoas idosas saudáveis contribui para o  lulas imunes especializadas no pulmão (ma-
                                                 declínio na função respiratória similar ao que  crófagos  alveolares,  neutrófilos  ou  células
                                                 se vê em doentes GOLD estádio I”.       dendríticas residentes do pulmão) e pela ca-
                                                 Esta perda funcional, esclareceu o pneumo-  pacidade de compensação”. Porém, adverte
                                                 logista, deve-se a uma  série de alterações  o  pneumologista, “a  exposição sustentada
                                                 anatómicas e fisiológicas associadas e seme-  ou excessiva a estímulos ambientais, jun-
                                                 lhantes às do enfisema. Este “enfisema senil”   tamente com alterações epigenéticas e pre-
                                                 carateriza-se pelo “alargamento alveolar na   disposição genética, desequilibra o ciclo de
                                                 ausência de destruição da parede” e é, con-  renovação e reparação fisiológica celular.
                                                 forme explicou o especialista, “claramente  O tabaco é um dos poluentes cujos malefí-
                                                 diferente do tecido pulmonar patofisiologi-  cios para a saúde respiratória estão ampla-
                                                 camente alterado dos doentes pulmonares”.  mente estudados. Sabe-se hoje que o fumo
                                                 As implicações do envelhecimento nos pa-  do tabaco contém inúmeras moléculas oxi-
                                                 râmetros funcionais e na mecânica ventila-  dantes, responsáveis pelo que  atualmente
             António Jorge Ferreira              tória, recentemente explicitados no traba-  se designa por “inflamm-aging tabágica”.
             Centro Hospitalar                   lho «The effects of Aging on Lung Structure  De acordo com o preletor, os oxidantes no
             e Universitário de Coimbra          and Function» (Skloot G. S., Clin Geriatr  fumo do tabaco causam lesão pulmonar por
                                                 Med. 2017 Nov; 33 (4): 447-457), incluem a  vários mecanismos, incluindo: esgotamento
                                                 dilatação dos alvéolos levando à redução   do glutatião e outros antioxidantes; início e
                                                 da pressão de retração elástica do pulmão –  hiperexpressão dos mecanismos redox; ina-
                                                 que, por sua vez, provoca uma diminuição  tivação de  inibidores  das  proteases; dano
                                                 do FEV  e da CVF, bem como um aumento  direto aos lípidos membranares, ácidos nu-
                                                       1
                                                 da CRF e da CPT – e contempla, igualmente,  cleicos  e proteínas. Todos estes processos
                                                 o encerramento das vias aéreas (aumento   derivam em envelhecimento pulmonar ace-
                                                 da CRF e do VR). São ainda consequências  lerado, apontou o especialista.
                                                 deste envelhecimento a compliance da pa-  Em  jeito de  conclusão, e reforçando que  o
                                                 rede torácica reduzida e a diminuição da   envelhecimento  pulmonar é um fenóme-
                                                 força muscular, com aumento do VR e re-  no multifatorial e complexo, António Jorge
                                                 dução da CPT.                           Ferreira deixou uma questão para reflexão:
                                                 A terminar, José Reis Ferreira apontou algu-  “Será o envelhecimento pulmonar o resulta-
                                                 mas abordagens terapêuticas “alternativas”   do final das agressões ambientais indoor e/
                                                 a  considerar  no  tratamento  deste  “enfise-  ou outdoor (tabagismo, poluição, ocupação,
                                                 ma senil” não DPOC. A saber: antioxidantes  vírus,  alergénios) ou  será  antes o  starting
                                                 (análogos de SOD, glutatião, fator 2 nuclear)   point para múltiplas  patologias pulmona-
                                                 ou sirtuinas (resveratrol e teofilina).   res crónicas (DPOC, fibrose pulmonar idio-
                                                                                         pática, cancro do pulmão) agravadas pelas
                                                 “INFLAMM-AGING TABÁGICA”                agressões ambientais?”.
             José Reis Ferreira                                                          De acordo com o médico,  é possível que  a
             Clínica de Doentes                  Sendo o pulmão dos poucos órgãos internos  resposta resida na desregulação (e na tera-
             Pulmonares (Lisboa)                 constantemente  expostos  ao ambiente ex-  pêutica para essa desregulação) da matriz
                                                 terno,  o impacto ambiental na estrutura e   extracelular pulmonar.


                                                                   32
                                                                Janeiro 2018
   27   28   29   30   31   32   33   34   35   36   37