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Jornal Médico | ESPECIAL 33.º CONGRESSO DE PNEUMOLOGIA
ENVELHECIMENTO PULMONAR
Vamos todos ter DPOC?
As comissões de trabalho de Fisiopatologia Respiratória e DPOC, Tabagismo, Doenças
do Interstício e Doenças Ocupacionais da Sociedade Portuguesa de Pneumologia
juntaram-se, numa sessão patrocinada pela GSK, para uma reflexão sobre as
consequências do envelhecimento pulmonar. A fronteira entre normal e patológico,
o impacto do tabaco e de outros poluentes na saúde respiratória e a relevância
clínica/aspetos imagiológicos a considerar nas doenças do interstício mereceram
destaque num debate que procurou responder à questão: “Vamos todos ter DPOC?”.
As alterações fisiopatológicas relacionadas função pulmonar determina criticamente a
com a idade são transversais a todos os órgãos saúde pulmonar.
e sistemas humanos e os pulmões não são ex- Segundo António Jorge Ferreira, “os fatores
ceção. Como tal, e de acordo com José Reis Fer- de stress ambientais são geralmente com-
reira, “o envelhecimento fisiológico ‘normal’ pensados ou neutralizados pela ação de cé-
em pessoas idosas saudáveis contribui para o lulas imunes especializadas no pulmão (ma-
declínio na função respiratória similar ao que crófagos alveolares, neutrófilos ou células
se vê em doentes GOLD estádio I”. dendríticas residentes do pulmão) e pela ca-
Esta perda funcional, esclareceu o pneumo- pacidade de compensação”. Porém, adverte
logista, deve-se a uma série de alterações o pneumologista, “a exposição sustentada
anatómicas e fisiológicas associadas e seme- ou excessiva a estímulos ambientais, jun-
lhantes às do enfisema. Este “enfisema senil” tamente com alterações epigenéticas e pre-
carateriza-se pelo “alargamento alveolar na disposição genética, desequilibra o ciclo de
ausência de destruição da parede” e é, con- renovação e reparação fisiológica celular.
forme explicou o especialista, “claramente O tabaco é um dos poluentes cujos malefí-
diferente do tecido pulmonar patofisiologi- cios para a saúde respiratória estão ampla-
camente alterado dos doentes pulmonares”. mente estudados. Sabe-se hoje que o fumo
As implicações do envelhecimento nos pa- do tabaco contém inúmeras moléculas oxi-
râmetros funcionais e na mecânica ventila- dantes, responsáveis pelo que atualmente
António Jorge Ferreira tória, recentemente explicitados no traba- se designa por “inflamm-aging tabágica”.
Centro Hospitalar lho «The effects of Aging on Lung Structure De acordo com o preletor, os oxidantes no
e Universitário de Coimbra and Function» (Skloot G. S., Clin Geriatr fumo do tabaco causam lesão pulmonar por
Med. 2017 Nov; 33 (4): 447-457), incluem a vários mecanismos, incluindo: esgotamento
dilatação dos alvéolos levando à redução do glutatião e outros antioxidantes; início e
da pressão de retração elástica do pulmão – hiperexpressão dos mecanismos redox; ina-
que, por sua vez, provoca uma diminuição tivação de inibidores das proteases; dano
do FEV e da CVF, bem como um aumento direto aos lípidos membranares, ácidos nu-
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da CRF e da CPT – e contempla, igualmente, cleicos e proteínas. Todos estes processos
o encerramento das vias aéreas (aumento derivam em envelhecimento pulmonar ace-
da CRF e do VR). São ainda consequências lerado, apontou o especialista.
deste envelhecimento a compliance da pa- Em jeito de conclusão, e reforçando que o
rede torácica reduzida e a diminuição da envelhecimento pulmonar é um fenóme-
força muscular, com aumento do VR e re- no multifatorial e complexo, António Jorge
dução da CPT. Ferreira deixou uma questão para reflexão:
A terminar, José Reis Ferreira apontou algu- “Será o envelhecimento pulmonar o resulta-
mas abordagens terapêuticas “alternativas” do final das agressões ambientais indoor e/
a considerar no tratamento deste “enfise- ou outdoor (tabagismo, poluição, ocupação,
ma senil” não DPOC. A saber: antioxidantes vírus, alergénios) ou será antes o starting
(análogos de SOD, glutatião, fator 2 nuclear) point para múltiplas patologias pulmona-
ou sirtuinas (resveratrol e teofilina). res crónicas (DPOC, fibrose pulmonar idio-
pática, cancro do pulmão) agravadas pelas
“INFLAMM-AGING TABÁGICA” agressões ambientais?”.
José Reis Ferreira De acordo com o médico, é possível que a
Clínica de Doentes Sendo o pulmão dos poucos órgãos internos resposta resida na desregulação (e na tera-
Pulmonares (Lisboa) constantemente expostos ao ambiente ex- pêutica para essa desregulação) da matriz
terno, o impacto ambiental na estrutura e extracelular pulmonar.
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Janeiro 2018

