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Jornal Médico | ESPECIAL 33.º CONGRESSO DE PNEUMOLOGIA
BRONQUIECTASIAS NÃO FIBROSE QUÍSTICA
NOC da ERS e consenso sobre
exacerbações marcam 2017
vidade da doença (biomarcadores). Também antibioterapia prolongada está recomendada
é importante definir os diferentes fenótipos e em todos os doentes que tenham mais de três
endótipos, de modo a ser possível oferecer um exacerbações por ano.
tratamento mais individualizado. Quanto à terapêutica muco-ativa “existem vá-
Filipa Costa chama, ainda, a atenção para a ne- rios estudos feitos com vários fármacos, e suge-
cessidade de aprofundar o conhecimento das re-se o tratamento prolongado em doentes que
exacerbações e de avançar no conhecimento têm dificuldade em eliminar expetoração, má
da terapêutica, nomeadamente no “custo-efe- qualidade de vida e onde as técnicas habituais
tividade, tipo, posologia e indicações dos tra- de drenagem das vias aéreas falharam no con-
tamentos farmacológicos utilizados, como os trole dos sintomas”. Ao mesmo tempo, não se
broncodilatadores e os corticoides inalados, as- recomenda o uso de DNAse.
sim como os tratamentos não farmacológicos”. “A utilização rotineira de broncodilatadores
Na perspetiva da pneumologista do CHUC, o também não está indicada, a não ser aos doen-
trabalho mais importante do ano nesta área, tes com dispneia significativa”, continua.
“pela grande aplicabilidade que tem na práti- Por sua vez, o tratamento cirúrgico também
ca clínica” são as normas de orientação clínica tem “indicações muito precisas”, estando
(NOC) para a abordagem das bronquiectasias apenas sugerido para doentes com bron-
no adulto da European Respiratory Society quiectasias localizadas e uma frequência ele-
(ERS). Não se tratando de um trabalho que visa vada de exacerbações apesar da terapêutica
Filipa Costa ser exaustivo sobre bronquiectasias, é antes otimizada, assim como em doentes com he-
Centro Hospitalar um documento “muito prático” que identifica moptises maciças apesar da embolização das
e Universitário de Coimbra nove questões – etiologia, exacerbações, irradi- artérias brônquicas.
cação, anti-inflamatórios, broncodilatadores, Por fim, a fisioterapia respiratória também é
antibióticos, agentes muco-ativos, cirurgia e abordada neste documento, e está indicada em
fisioterapia respiratória – que pretendem ser doentes com produção crónica de expetoração
Tem havido pouco interesse, poucos estudos representativas dos principais problemas clíni- ou dificuldade em expetorar – aos quais deve
e pouca investigação na área das bronquiec- cos com que os profissionais se deparam no dia ser ensinada uma técnica de cinesiterapia res-
tasias não fibrose quística, realidade que tem a dia. Assim, através de uma revisão sistemáti- piratória por um fisioterapeuta –, e a doentes
vindo, contudo, a modificar-se, nos últimos ca da literatura, o estudo pretende dar respos- com intolerância ao esforço – aos quais se deve
anos, com um aumento “exponencial” dos tra- tas que sirvam de orientação no que respeita à sugerir a inscrição num programa de reabili-
balhos publicados sobre o tema, tendo também abordagem com estes doentes, defende. tação respiratória e a prática de exercício de
surgido um interesse crescente por parte da in- Em termos de etiologia, explica Filipa Costa, forma regular, conclui a pneumologista.
dústria farmacêutica e das sociedades científi- sugere-se um “pack” mínimo de testes etiológi-
cas, conforme explicou a médica do serviço de cos: “o hemograma com contagem celular dife- O IMPACTO DAS COMORBILIDADES
Pneumologia do Centro Hospitalar Universitá- rencial, Ig séricas: IgG, IgM, testar para ABPA, e NA QUALIDADE DE VIDA
rio de Coimbra (CHUC), Filipa Costa, no âmbito outros testes de acordo com as características
de uma das sessões do 33.º Congresso da SPP clínicas ou na doença grave ou rapidamente Outro estudo relevante, na perspetiva de Filipa
dedicadas à revisão do ano pneumológico. progressiva, como alfa -AT, MNT, FQ e outros Costa, é o «Comorbidities and the risk of mor-
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Este aumento, no entanto, não se tem tra- défices imunológicos”. tality in patients with bronchiectasis: an inter-
duzido em trabalhos com impacto na vida national cohort study», que tem como objetivo
real e com impacto clínico para os doentes, TERAPÊUTICA: ANTI-INFLAMATÓRIOS determinar a prevalência das comorbilidades
pelo que os especialistas continuam a ser NÃO SÃO RECOMENDADOS em doentes com bronquiectasia não fibrose
“confrontados com uma grande indecisão”, quística, determinar a força da associação en-
apontou a especialista. No que respeita ao tratamento de exacerba- tre o número e a natureza das comorbilida-
Neste momento existem, assim, alguns aspetos ções, recomendam-se 14 dias de antibiotera- des e o risco de mortalidade, desenvolver um
a necessitar de investigação adicional. Na pers- pia, embora em certos casos a duração possa índice da comorbilidade específico – BACI –, e
petiva da pneumologista, que elaborou uma ser maior ou menor. Já em termos de erradi- investigar se adiciona informação prognóstica
revisão do ano 2017 no que concerne a esta cação, aconselha-se que se utilize em doentes ao BSI. Assim, foram acompanhados 986 doen-
patologia, é necessário conhecer a epidemiolo- com isolamento de pseudomonas aeruginosa, tes, ao longo de cinco anos, e identificaram-se
gia atual, a etiologia e as comorbilidades, assim mas não para outros microrganismos. 81 comorbilidades. Com as 13 principais, foi
como aprofundar o estudo da fisiopatologia e Relativamente aos anti-inflamatórios, está construído um índice, para o qual existe uma
da microbiologia. É simultaneamente necessá- provado que estes não diminuem o risco de calculadora on-line que pode ser utilizada.
rio “criar ferramentas simples, baratas e úteis” exacerbação, nem melhoram a função pulmo- Concluiu-se, como revelou a pneumologista,
que permitam avaliar os doentes tendo em nar ou a qualidade de vida e têm um risco au- que “o BACI apresentou a melhor capacida-
conta critérios de gravidade (scores multidi- mentado de efeitos secundários, pelo que “não de preditiva de sobrevivência aos cinco anos,
mensionais), impacto (qualidade de vida) e ati- são recomendados”, revela. Por outro lado, a comparativamente com o BSI e o FACED, e
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Janeiro 2018

