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João F. Rodrigues
Pós-graduado em Gestão
e Economia da Saúde
Médico Oftalmologista - Hospital
de Setúbal
Pearls & pitfalls
do sistema de saúde
português
INTRODUÇÃO valores dos mesmo associados aos atos como a “multiplicação dos peixes” apli-
A Saúde em Portugal pode melhorar que realiza com maior frequência na sua cada à iliteracia para a saúde, que pode
através do criticismo, transparência e da prática pública/privada. No fundo, o lóbi ser melhorada... Em benefício do cliente
inovação aplicados à gestão do quotidia- começa nos próprios médicos e está bem da saúde daquele setor.
no dos serviços. Este artigo de opinião enraizado quase desde a fundação do
procura, através de um brainstorming Serviço Nacional de Saúde (SNS). A ADSE QUANDO NASCE
aleatório, abordar algumas “pérolas e ar- Outra questão associada à prestação de NÃO É PARA TODOS
madilhas” enraizadas no sistema de saú- cuidados de saúde pelas instituições par- Qual é a lógica subjacente aos contra-
de português. ticulares de saúde é a falta de transpa- tos individuais de trabalho em funções
rência quanto aos valores dos cuidados públicas celebrados no SNS, que na úl-
HOSPITAIS PRIVADOS: a prestar, raramente totalmente discri- tima década representarão não mais de
PACK OPACO minados. É habitual a “cascata” da co- 20.000 a 30.000 contratações de profis-
O core business dos hospitais privados brança, por exemplo, num episódio de sionais de saúde (médicos, enfermeiros,
são os cuidados de saúde preferencial- urgência, começar por um médico gene- assistentes operacionais, etc.), de não
mente prestados a beneficiários de segu- ralista, que garante a assistência “indife- terem direito a serem voluntariamente
ros de saúde e de subsistemas da saúde. renciada” 24/24 horas da entidade, que beneficiários da ADSE, quando estão dia-
Recorrer aos mesmos como cliente parti- referencia para um médico especialista riamente expostos, entre outras, a doen-
cular é a garantia de aumento imprevis- nem sempre imediatamente presente, ças infecto-contagiosas, em comparação
to da despesa pessoal out-of-the-pocket. mas on demand, logo mais caro e au- com outros funcionários públicos, por
Será lícito este tipo de hospital cobrar 50 mentando os custos (dupla faturação), exemplo em funções administrativas,
euros por uma oximetria de pulso? Por que vai aumentando a complexidade que entram para os quadros e estão su-
que razão isto acontece? Tem essencial- da assistência prestada, solicita exames jeitos a baixo risco de contraírem doen-
mente a ver com preços dos “K” defini- complementares de diagnósticos muita ças? O desconto para este subsistema é
dos pelas tabelas da Ordem dos Médicos vezes dispensáveis pela clínica, até à fa- voluntário, mas a inclusão involuntária
(OM), que em várias especialidades são tura final. e não equitativa. E as “baixas” por in-
completamente desajustados e anacró- O mesmo se aplica a intervenções cirúr- capacidade um verdadeiro calvário no
nicos à maior ou menor complexidade gicas: o pacote de prestação de cuidados funcionamento interno das instituições
dos procedimentos realizados. Se a OM raramente está fechado e é em muitos públicas e o nas despesas do erário pú-
solicitar a um determinado colégio de es- casos uma incógnita para os clientes da blico. Prevê-se, com a brevidade legislati-
pecialidade que os “K” sejam revistos, o saúde menos assertivos e informados va habitual no nosso país, uma abertura
que acontece é que cada médico de uma dos cuidados peri e pós-operatórios. De- a novos beneficiários que sendo tardia
eventual comissão tenderá a defender os nomino este fenómeno da saúde privada se saúda.
REVISTA PORTUGUESA DE GESTÃO & SAÚDE • N.º 21 15

