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O BURNOUT DOS MÉDICOS traduzindo ganhos agregados em QALY AS ASSIMETRIAS REGIONAIS
A OM realizou recentemente um estudo e DALY. As dietas estão na moda, a for- E INTER-REGIONAIS NO ACESSO
sobre burnout (exaustão física e men- mação universitária nesta área em alta. À INOVAÇÃO
tal) na classe médica. As conclusões Ou seja, existe uma elevada oferta e uma No serviço hospitalar no qual exerço a
são óbvias, mas em termos executivos baixa procura destes profissionais... pelo minha atividade profissional, o acesso
o que resulta deste inquérito? Sessões SNS. A par da contratação destes profis- à inovação é bastante abrangente. Os
de esclarecimento na sede da OM para sionais a nível hospitalar, no mínimo um utentes beneficiam dos últimos avanços
os interessados e frequentadas princi- por cada serviço de Medicina/Cirurgia, de- científicos na área da Oftalmologia e es-
palmente por médicos sem burnout ou veria ser criada uma linha SOS nutrição tão muito satisfeitos. Alguns utentes de
reformados... O inquérito de natureza associada aos cuidados primários, plas- outros hospitais na proximidade – até
retrospectiva realizado foi anónimo e mando o bom exemplo das consultas de 25 km – surgem como episódios de ur-
perdeu-se assim uma boa oportunidade cessação tabágica disseminada pela rede gência ou em consulta externa, com a
para identificar casos “no ativo” ou com de cuidados do SNS, que funciona de for- recente opção de escolha proporcionada
elevado risco de recidiva e planear uma ma eficaz a tempo e horas. E o que é bem pelo Ministério da Saúde.
intervenção atempada. Por responder fi- feito, deve ser replicado. Presentemente na minha consulta,
cam então questões como: Quem cuida surgiu um utente proveniente de uma
da saúde psíquica dos médicos? Existi- PAY-PER-VIEW NOS SERVIÇOS aldeia no concelho de Odemira, geogra-
rá algum plano de intervenção na for- DE SAÚDE ficamente mais próximo de Beja e do
ja para a criação de gabinetes de apoio A cobrança imediata e prévia aos actos Algarve, via consulta de Oftalmologia
psicológico aos médicos e outros profis- em saúde é realizada de forma direta nos do Hospital do Litoral Alentejano, apa-
sionais de saúde? Espera-se que sim, em serviços privados de saúde. Percebe-se rentemente o hospital da área; neste
prole de uma melhor saúde mental dos porquê, tendo em mente o seu modelo não se realizam tratamentos LASER (ou
prestadores que se deseja. de negócio: evitar cobranças posteriores o aparelho estaria avariado) e cirurgia
difíceis ou impossíveis. O que pode colo- vítreo-retiniana de que o doente pode-
PSICÓLOGOS: car questões deontológicas na prestação rá necessitar. O insight do doente não
UM PARA TODOS E TODOS POR MAIS de assistência urgente/emergente. Por lhe permite perceber com objetividade
O contingente de psicólogos presentes outro lado, existem situações abusivas porque tem que ser tratado no Hospital
nas instituições do SNS público é escas- como a cobrança prévia de exames com- de Setúbal, necessita de efetuar deslo-
so e presta a assistência possível à po- plementares de diagnóstico e terapêuti- cações de 400 Km, ida e volta, para as
pulação, que dificilmente pode suportar ca (ECDT). Não são estes, por definição, quais solicitou transporte às custas do
do seu bolso os cuidados em regime pri- complementares à avaliação clínica? Cento Hospitalar de Setúbal/SNS. Ne-
vado. É só fazer as contas a uma sessão No SNS, a cobrança de taxas modera- cessitarei no mínimo de seis desloca-
por semana, ao preço de 45 euros/hora, doras de consultas ou exames comple- ções do doente nos próximos três me-
durante um ano: 3 a 4 salários mínimos mentares é mais flexível e socialmente ses para tratá-lo devidamente, correndo
anuais. Há falta de psicólogos formados “amiga”; quando o utente não tem pos- o risco de o follow-up vir a ser interrom-
em Portugal? Não. Haverá dificuldade na sibilidade de pagar no momento, a dívi- pido, com perda de eficácia dos trata-
contratação de mais psicólogos? Sim. En- da fica registada em sistema sendo co- mentos. Este é um exemplo da dificul-
tão, por que não estabelecer protocolos brada numa próxima visita ou por nota dade de acesso à inovação tecnológica e
com gabinetes de Psicologia na comuni- de cobrança para o utente/domicilio. A das assimetrias de dotação dos serviços
dade? Interessados não faltarão do lado inovação positiva neste setor tem vindo clínicos com custos diretos e indiretos
dos psicólogos clínicos e os custos das a melhorar não só a receita como a com- adicionais para o SNS.
parcerias seriam seguramente inferiores preensão por parte dos utentes sobre a
à contratação direta pelo SNS. clássica definição do SNS como “tenden- FACULDADE DE MEDICINA
cialmente gratuita” e do cliché “a saúde PRIVADA NA CAPITAL
OS NUTRICIONISTAS não tem preço, mas custos”. Esta questão poderá revelar-se uma ver-
E AS DOENÇAS CRÓNICAS No consultório privado, de uma maneira dadeira caixa de Pandora. O que achará
As doenças crónicas responsáveis por ele- geral, o paciente só paga no final do ato da ideia a Associação Nacional de Estu-
vados custos diretos e indiretos são outro e, se insatisfeito ou se o prestador assim dantes de Medicina (ANEM)? A resposta
flagelo na população portuguesa. A má o entender, poderá não pagar o serviço. é previsível. No entanto, numa socieda-
ou incorreta alimentação é um factor mo- É o denominado pay-per-satisfaction. de de economia liberal, o direito à livre
dificável em muitas delas, como a diabe- Neste caso, a relação médico-doente não iniciativa privada está consagrado na
tes mellitus, hipertensão arterial, a obesi- pode ser mais direta e transparente, de- Constituição. Assim como a livre circula-
dade e a doença renal crónica, permitindo vendo este tipo de prestação de serviço ção de cidadãos na comunidade europeia
uma intervenção com ganhos óbvios na resistir à “fagocitose” dos grandes grupos tem possibilitado a formação em Medici-
despesa pública a médio e longo prazo, económicos da saúde. na, em variados países, à descendência
16 REVISTA PORTUGUESA DE GESTÃO & SAÚDE • N.º 21

