Page 23 - RPGS n.º 21
P. 23
como a própria radiação. Um ano após a alterações genéticas afetam as células Segundo diversos autores – Mahesh
descoberta da radiação X por Röentgen, gonadais e são suscetíveis de gerar ano- (2001b) e Rehani et al. (2010) – há mui-
foi relatada a primeira morte relaciona- malias na descendência. tas causas comuns que podem alterar
da com a exposição à radiação. Claren- · Efeitos determinísticos circular – a Circu- a dose de radiação dos pacientes e dos
ce Dally, assistente de Thomas Edison, lar Normativa n.º 06/DSA de 06/04/2003 utilizadores. Todos os procedimentos
que passava horas a criar experiências da Direção-Geral da Saúde (DGS) – que que reduzem a dose do paciente tam-
em frente ao fluoroscópio, desenvolveu levam à morte celular e estão diretamen- bém irão diminuir a dose do utilizador,
uma dermatite aguda que resultou na te associados à dose recebida, sendo o mas o inverso não é verdadeiro. Os pro-
sua morte (Brodsky and Kathren, 1989). aparecimento do efeito dependente de se fissionais podem utilizar os aventais de
O conhecimento dos mecanismos de atingir um determinado limiar de dose. A chumbo, óculos plumbíneos ou outros
ação da radiação ionizante é basilar probabilidade de ocorrência e a severida- tipos de proteção, podendo reduzir a
para a gestão do risco radiológico. De de do dano está diretamente relacionada sua própria dose de radiação, mas esses
acordo com Mahesh (2001a) a noção de com o aumento de dose. As alterações dispositivos de proteção não reduzem a
fatores como a utilização adequada dos que surgem destes efeitos são conside- dose do paciente. Em algumas situações,
equipamentos de proteção individual, o radas somáticas, ou seja, em células que uma sensação de segurança por parte
tipo e o tempo de exposição usados, e a não estão diretamente envolvidas num dos utilizadores pode levar à negligência
apropriada ponderação dos seus efeitos processo de multiplicação. A ação destes na proteção dos pacientes.
secundários a nível biológico, são man- efeitos pode ocorrer em diferentes zonas, A dosimetria do paciente é um proces-
datórios na vigilância e controlo da ex- como por exemplo: nas células (ADN), na so complexo devido ao tipo de radiação
posição à radiação. pele (radiodermites), no cristalino (catara- utilizada, à diversidade de técnicas para
Tal como Stecker, Balter et al. (2009) re- tas) e no sangue (anemia). obtenção da imagem e às diferentes mo-
ferem, os efeitos da radiação ionizante O princípio ALARA (as long as reasonably dalidades e duração de exposição. Os re-
podem dividir-se em estocásticos e de- achievable) deve estar permanentemen- latórios de dosimetria são por vezes um
terminísticos: te presente na mente dos utilizadores de verdadeiro desafio, devido às várias uni-
• Efeitos estocásticos – causados por radiação ionizante. Este princípio, como dades e grandezas utilizadas (Scott 2014).
uma alteração aleatória no ADN de uma citado por Vano et al. (2015), defende que De acordo com Balter et al. (2012), o ob-
única célula que continua a multiplicar- a exposição à radiação deve ser tão baixa jetivo da gestão de dose é minimizar o
-se, levando à transformação celular. quanto razoavelmente exequível, man- risco de radiação para o paciente, de for-
Nestes efeitos não existe limiar de dose, tendo o valor diagnóstico. Desta forma, ma a reduzir os efeitos determinísticos
uma vez que o dano é independente da devem-se adotar metodologias que mini- e estocásticos. Os limites estabelecidos
dose recebida. O aumento da dose so- mizem a dose de radiação ionizante ab- são considerados suficientemente bai-
mente aumenta a probabilidade e não sorvida pelos pacientes e profissionais, xos para evitar os efeitos mutagénicos e
a severidade do dano. Os efeitos heredi- mantendo-a dentro dos limites estabele- carcinogénicos. O quadro 1 apresenta a
tários são efeitos estocásticos porque as cidos pela ICPR. relação entre os potenciais efeitos da ex-
posição à radiação e os limiares de dose
associados a cada um.
Quadro 1: A relação entre os potenciais efeitos da exposição à radiação Monitorização de dose
e os limiares de dose associados (Wagner et al., 1998) Na opinião de Chida et al. (2010), a mo-
nitorização da dose de radiação é fun-
EFEITOS POTENCIAIS DA EXPOSIÇÃO À RADIAÇÃO IONIZANTE
damental para os programas de contro-
Efeito Limiar de dose (Gy) Tempo de latência lo de qualidade dos equipamentos que
utilizam radiação X de forma a medir ou
Eritema transitório 2 2-24h
estimar as doses a que estão submetidos
Eritema grave 6 ~ 1.5 semanas os pacientes, ou seja, estabelecer a dosi-
Epilação temporária 3 ~ 3 semanas metria do paciente.
Um dos principais pontos da monitori-
Epilação permanente 7 ~ 3 semanas
zação da dose de radiação é o acompa-
Descamação seca 14 ~ 4semanas nhamento personalizado da dose por
exame e a dose total a que o paciente foi
Descamação húmida 18 ~ 4semanas
submetido, levando o pessoal médico a
Ulceração secundária 24 ≥ 6 semanas avaliar as razões para o excesso de dose
Eritema tardio 15 8-10 semanas e a procurar soluções de melhoria. Além
disso, a monitorização da dose aumenta
Cancro de pele Desconhecido ≥ 15 anos
a conscientização do pessoal médico na
REVISTA PORTUGUESA DE GESTÃO & SAÚDE • N.º 21 23

