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rePortagem | jornal médico
A investigação identifica pontos orientadores,
tão necessários quanto urgentes, que têm em
consideração aquilo que é recomendado pela
Organização Mundial de Saúde (OMS), assen-
te em três enquadramentos organizacionais: a
cobertura de saúde universal, o continuum dos
cuidados de saúde relacionados com as hepati-
tes e a abordagem de saúde pública.
A proposta da ENSP determina, para o efeito,
cinco medidas principais: o desenvolvimento
de um plano nacional estratégico, a promoção
de uma gestão clínica dinâmica, a colaboração
do doente no centro do sistema de saúde, a
abordagem da hepatite C enquanto problema
de saúde pública e a planificação de uma ação
concertada de prevenção e diagnóstico.
Para a criação de um plano nacional estraté- Rute Simões Ribeiro,
gico “é fundamental que a hepatite C seja co- investigadora da Escola
locada na agenda política interministerial e Nacional de Saúde pública,
que seja criada uma dotação orçamental para apresentou os resultados do
a gestão da doença”. Acresce a necessidade de estudo “desenho do futuro:
educar para esta realidade, com atenção parti- portugal sem vHC”
cular aos grupos de risco.
Na opinião de Rute Simões Ribeiro, a neces-
sidade de estratégia, que já havia sido identi-
ficada antes de 2015, foi reforçada neste estu- previsto para 2030, se o problema for abor- Nas suas intervenções, o representante dos
do, mas ainda não é visível, apesar do esforço dado como uma questão de saúde pública. O ativistas alertou para o problema das taxas
das instituições. Por outro lado, “a cooperação estudo prevê a necessidade de formação e in- moderadoras enquanto entrave ao tratamen-
interministerial tem de ser formalizada, para tervenção dos especialistas em Medicina Geral to do VHC, assinalando que o GAT já teve de
que haja um compromisso e envolvimento de e Familiar, sendo premente que, num futuro apoiar muitos doentes sem recursos financei-
todos, criando sinergias”, e não apenas agir em próximo, o tema da gestão da hepatite C esteja ros. Apesar de acreditar que há falta de conhe-
reação a um problema. contemplado nos conteúdos curriculares. cimento epidemiológico, Luís Mendão recor-
O estudo defende ainda a existência de uma A criação de um programa nacional de preven- dou a importância do papel dos “profissionais
gestão clínica dinâmica, que permita uma revi- ção e diagnóstico na área da hepatite C deve de saúde, da entidade reguladora, do Governo
são periódica das normas de orientação clínica passar pela preparação de estratégias nacio- e da Assembleia da República na consensua-
(NOC) para o diagnóstico e rastreio mais ativo, nais em conjunto com a sociedade civil, bem lização das linhas estratégicas. Só é possível
“tendo em atenção populações específicas, os como a otimização da Consulta a Tempo e Ho- erradicar a doença se formos às prisões e às
diferentes genótipos e respetivo acompanha- ras. A investigação menciona ainda a realiza- pessoas que usam drogas, que têm ficado cla-
mento”, uma ideia reforçada pela diretora do ção de um rastreio populacional e construção ramente para trás”.
Programa Nacional para as Hepatites Virais, de sistemas de educação e de informação sobre Ricardo Batista Leite, responsável pelo go-
Isabel Aldir. “É preciso agilizar o processo de a patologia dirigidos à população que envol- verno que criou o programa nacional para as
elaboração das NOC. Todas as inovações que vam os próprios doentes infetados. hepatites víricas da qual Isabel Aldir é respon-
venham a acontecer têm de ser plasmadas, de “Para a implementação das cinco grandes sável, acredita na urgência de “ter um plano
forma célere, nos documentos que nos orien- medidas recomendadas pelo estudo serão de- integrado que demonstre de forma clara o
tam”, asseverou, identificando a importância terminantes a liderança, a colaboração, a res- que é preciso fazer para acelerar o diagnósti-
do papel desempenhado pela sociedade civil, ponsabilidade, a monitorização e a avaliação co precoce, o que implica renegociar dos cus-
nomeadamente do Grupo de Ativistas em Tra- em todas as ações”, defende, acrescentando a tos dos testes para que, em meios informais,
tamento (GAT) em todo este processo. Relativa- viabilidade de atingir todas estas metas. através das organizações não governamentais
mente aos cuidados de saúde primários (CSP), e das comunidades, possamos diagnosticar
é preciso criar orientações clínicas em perma- envoLvimento Da socieDaDe civiL onde estão estes doentes. Precisamos de assu-
nente atualização, “focadas na prevenção, no É funDamentaL Para erraDicação mir que há uma prevalência muito elevada no
rastreio, no diagnóstico e no tratamento”. Da Doença VHC, nomeadamente nos estabelecimentos
À semelhança daquilo que tem vindo a ser no- prisionais, e não aceitar a resposta do Ministé-
meado como primordial pelos responsáveis na Além da apresentação das principais conclu- rio da Justiça, que nega o consumo de drogas
área da saúde, o “Desenho do futuro: Portugal sões deste estudo, marcou presença neste en- nas prisões. Não basta fazer o teste à entrada,
sem VHC” recomenda que o doente seja colo- contro o editor sénior e líder editorial global é preciso fazer o teste à saída”.
cado no centro do sistema, tratado de forma para a Saúde do The Economist Intelligence Na mesa-redonda final marcaram presen-
individualizada e integrada, sendo-lhe garanti- Unit, Martin Koehring, para apresentar o pro- ça Isabel Aldir, o presidente do Infarmed,
do o acompanhamento contínuo. Para que tal jeto “Path to Zero”, no qual é destacado o pa- Henrique Luz Rodrigues e o hepatologista
suceda, importa criar projetos específicos para pel de 18 personalidades que, a nível global, do Hospital de Santa Maria, Rui Tato Mari-
o diagnóstico e tratamento das populações em exerceram influência com vista ao combate nho, seguindo-se o momento de participa-
risco. “No futuro, é crítico o aperfeiçoamento desta doença. Da lista surgem dois nomes por- ção do público num encontro que refletiu
dos sistemas de vigilância epidemiológica e a tugueses presentes na conferência: o depu- o problema da infeção pelo VHC. Após o
monitorização da Hepatite C.” tado à Assembleia da República, membro da debate teórico sobre a doença, permanece
Na opinião dos investigadores envolvidos, só é Comissão Parlamentar da Saúde e coordena- a dúvida, com data marcada. Será Portugal
possível eliminar a infeção do VHC e contribuir dor de Saúde Pública, Ricardo Batista Leite, e capaz de cumprir o desafio proposto pela
para o cumprimento deste objetivo da OMS, o presidente do GAT, Luís Mendão. OMS até 2030?
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Março 2017

